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ATUALIDADES

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NIGUÉM USA A PALAVRA GUERRA, MAS ELA JÁ EXISTE

Por Robert Fisk (*)

É estranho ver como a guerra se instala. Primeiro há os alertas sobre uma "explosão", depois os primeiros tiros. Em seguida, são disparados os primeiros morteiros, tiros de canhão, ataques com foguetes. Foi assim no Líbano. Está sendo assim na "Palestina".

Ninguém usa a palavra "guerra". Os americanos a ignoram, os israelenses usam simplesmente "violência terrorista" - falam, é claro, da violência árabe, não da sua. Mas, o que está ocorrendo hoje entre israelenses e palestinos é uma guerra civil, um conflito grande e crescente entre povos semitas, numa terra minúscula cujo desperdício de vidas humanas parece cada vez mais com as primeiras mortes da guerra civil libanesa (1975-90).

Ir de carro de Jerusalém a Ramallah (na Cisjordânia ocupada) é como ir de Sidon a Beirute há 25 anos: as barreiras, os desvios, os cartuchos das balas disparadas pela estrada, os prédios em ruínas.

Passeando por Ramallah, membros das forças de segurança palestinas servem de guia para se conhecer as milícias locais e os estragos causados a elas pelos ataques cada vez mais frequentes dos helicópteros e foguetes de Israel.

Ocorreu o mesmo no Líbano. Primeiro cada lado culpava o outro pela guerra. Depois eles se desumanizaram. O ditador iraquiano, Saddam Hussein, pede que Deus "destrua os judeus". Rabinos israelenses atacam os árabes

O centro de Ramallah abriga a delegacia de polícia na qual dois soldados israelenses foram linchados no início da revolta palestina. Mas a janela pela qual eles foram lançados (e boa parte do prédio) foi destruída por mísseis israelenses. Depois veio um ataque contra prédios da Força 17 (que faz a segurança de Arafat). E morteiros palestinos contra colônias israelenses em Gaza. A promiscuidade desses ataques irá em breve levar a um outro macabro fenômeno libanês: o massacre.

Um atirador palestino emerge de um prédio em ruínas e diz: "Está ficando igual a Hollywood por aqui." Mas ele não quer revelar seu nome. Outro palestino me explica a razão. "Aqui está minha carteira de identidade da ANP", diz ele, mostrando uma carteira com sua foto e a assinatura de Jamil Tarifi, ministro da ANP.

"Essas carteiras são coordenadas com Israel. Você vê o primeiro número de computador? É um 4. Isso significa que eu vim à Palestina com a OLP após 1993 (data dos primeiros acordos entre Israel e palestinos). Se tivesse nascido em Ramallah, o número seria 9. Se os israelenses sabem meu número de identidade, eles podem saber rapidamente se sou o que chamam de "terrorista". E podem me matar."

Sim, os esquadrões da morte são um reflexo da guerra libanesa. Assassinos. Assassinos de filhos de colonos israelenses. Assassinos de crianças palestinas.

Mas há diferenças. No Líbano, a morte atingia imparcialmente seus habitantes. Aqui a morte é administrada por Israel numa escala muito maior que a pelos palestinos. Porque Israel (e seus colonos) estão ocupando território árabe. Os palestinos não estão ocupando Israel.

Mas os diálogos de "segurança" entre os dois lados são cada vez mais libaneses. Em Beirute, costumávamos chamá-los de cessar-fogo. E eles sempre eram violados.

(*) Robert Fisk é correspondente do jornal inglês The Independent em Ramallah.

 

Extraído do jornal Folha de São Paulo, edição de 12/04/01

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