TESTEMUNHAS DIZEM QUE SOLDADOS AMERICANOS MATARAM CIVIS DESARMADOS
 

Por Kim Sengupta em Bagdá

Informações sobre abuso indiscriminado praticado por soldados americanos em Fallujah, inclusive a morte de civis desarmados e a destruição de um hospital durante um ataque, foram fornecidas por pessoas que escaparam da cidade.

Elas disseram, em entrevista ao The Independent, que um grande número de pessoas, incluindo crianças, foram mortas por atiradores americanos. Contaram, ainda, que os soldados dos Estados Unidos se recusaram a atender aos repetidos chamados de ajuda médica a civis feridos.

Algumas das mortes ocorreram durante os ataques à fortaleza rebelde e, pelo menos em um caso - o da morte de uma família de sete pessoas, inclusive um bebê de três meses - as autoridades americanas admitiram a responsabilidade e ofereceram uma compensação.

Os refugiados de Fallujah descrevem uma situação de extrema violência em que cidadãos que permaneceram na cidade, que  tinham recebido ordem dos americanos para se retirarem, foram tomados como cúmplices da rebelião. Homens em idade militar ficaram particularmente vulneráveis. No entanto, há relatos de crianças de 4 anos e mulheres e idosos sendo mortos.

As autoridades americanas acusaram simpatizantes militantes de espalharem a desinformação e também afirmaram que a população de Fallujah havia exagerado no número de mortos e no nível de danos provocado pela campanha aérea que precedeu os ataques.

O exército dos Estados Unidos, que está investigando o caso de um fuzileiro americano que, na semana passada, matou um militante iraquiano ferido e desarmado, disse que algumas das alegações de abuso serão investigadas. Também sustenta que os civis mortos ou feridos podem ter sido vítimas dos insurgentes.

As afirmações de abusos e mortes, vindo de diferentes fontes, parecem, no entanto, seguir um padrão consistente. Dr. Ali Abbas, que chegou a Bagdá vindo de Fallujah há quatro dias atrás, trabalhou em uma clínica na cidade que foi bombardeada pelos americanos. Ele disse que pelo cinco pacientes foram mortos.

O médico disse que o ataque ocorreu apesar de os oficiais americanos terem afirmado que sabiam de sua localização e de terem assegurado que a clínica seria poupada da ação militar.

O dr. Abbas,  28 anos, disse: "Nós tínhamos cinco pessoas em tratamento e elas foram mortas. Não sabemos porque a clínica foi atacada. Nossos colegas do Hospital Geral de Fallujah, que estavam fora da cidade, falaram aos americanos e nos disseram que eles evitariam atacar-nos.

"Mais tarde, eu e outros membros da equipe fomos de casa em casa para socorrer as pessoas que tinham sido feridas. Muitas delas morreram diante de nós porque não tínhamos remédios e outros instrumentos para realizar as cirurgias. Contatamos os médicos do Hospital de Fallujah e informamos da precariedade de nossa situação. Nós queríamos que os que estavam em estado mais grave fossem removidos e que nos enviassem remédios e mais médicos. Eles tentaram fazer isto mas disseram que foram proibidos pelos americanos.

"Uma das coisas que ficou muito evidente foi o número de pessoas mortas por atiradores americanos. Não eram só homens e mulheres, mas crianças também. A mais jovem que eu vi era um menino de quatro anos de idade. Quase todas aquelas pessoas tinham sido baleadas na cabeça, peito ou pescoço."

A família de Aziz Radhi Tellaib foi morta antes de a batalha de Fallujah começar. Ele tinha vindo de Ramadi com a família  para visitar alguns parentes quando o carro foi atingido pelo fogo de um Humvee americano e jogado no rio Eufrates.

Tellaib conseguiu se libertar mas não conseguiu salvar o resto de sua família. Os mortos incluíam Ahlam, a esposa dele, de 26 anos, seus filhos Omar, de 7, e Barat, de 3, e a filha Zainab. Também morreram sua sobrinha Rokyab, de 26, o filho Fadhi, de 3 anos, e a filha Farah, de três meses.

Tellaib, um comerciante de 33 anos, disse: "Fomos parados numa fila de carros por alguns Humvees que se encaminharam para nós. Um soldado disse que seguíssemos  mas enquanto eu dirigia veio um outro Humvee que começou a atirar. Eu fui ferido no lado da cabeça e minha esposa e meu filho mais velho foram alvejados no peito. Acho que morreram ali na hora. Havia sangue por onde quer que olhasse. Perdi o controle do carro que caiu no rio. Consegui sair e tentei tirar os outros de lá de dentro mas foi em vão e o carro afundou."

Os americanos disseram à polícia que havia sido um engano e que eu receberia uma compensação. Mas, quanto à minha família? Minha vida acabou. Bem que eles poderiam ter me matado também."

Rahim Abdullah,  um professor de 46 anos, contou que qualquer pessoa na rua era vista como um inimigo pelos americanos. "Eu estava tentando ir para a casa de meu tio, acenando um pedaço de pano branco conforme tínhamos sido aconselhados quando eles começaram a atirar em minha direção. Eu vi dois homens sendo mortos. Eram apenas pessoas comuns. A única forma de se ficar vivo era ficar dentro de casa e espero que ela não tenha sido atingida por alguma granada."

Publicado no Independent, em 24/11/2004

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