INVADAM! OCUPEM! DERROTEM! REPITAM!

 

Os Estados Unidos e seus aliados aprenderão a mesma lição da história que foi ensinada ao Império Britânico: um povo não pode ser ocupado.

Por Amir Butler

A história, como se diz, se repete: primeiro como tragédia, depois como farsa. Enquanto os eventos expostos e a ocupação iraquiana continua seu curso terrível, surgem paralelos com uma outra fracassada ocupação do país, há 100 anos atrás.

Quase tudo - desde a invasão, a imposição de um governo provisório, a violenta revolta, até os bombardeios aéreos de cidades - representa um trágico retorno à ocupação inglesa do Iraque, no início do século XX.

Da mesma forma que a invasão americana, a invasão inglesa começou, em 1917 com a promessa de "libertação". Em sua "Proclamação ao Povo de Bagdá", o general Stanley Maude prometeu ao povo iraquiano que após 26 gerações "de "sofrimento sob a tirania estrangeira", os exércitos do Império Britânico "não entrarão em suas terras e cidades como conquistadores ou inimigos e sim como libertadores."

Era, é claro, uma mentira. A intenção não era "libertar" os árabes do domínio otomano e sim ocupar a Mesopotâmia rica em petróleo; um fato ficou claro quando, em 28 de abril de 1920, a Liga das Nações premiou a Inglaterra com um mandato sobre o Iraque, legitimando, assim, a ocupação.

Os ingleses indicaram sir Percy Cox e sua assistente, Gertrude Bell, como administradores coloniais do Iraque. Demonstrando a mesma auto-ilusão que caracteriza a discussão contemporânea sobre o Iraque, Bell escreveu que logo "as tribos incivilizadas" do Iraque iriam amar e adorar o Império Britânico e seus costumes. "O povo iraquiano",disse Bell, "quer que controlemos seus assuntos e querem sir Percy como seu alto-comissário".

O orgulho cego espatifou-se quando, em julho de 1920, o povo iraquiano se rebelou. A resistência era, como hoje, inspirada, em grande parte, pela religião. Em carta datada de 21 de agosto de 1921, Bell se queixava de "um alim (clérigo) alto, de barba negra, com uma expressão sinistra. Nós tentamos prendê-lo no início do mês, mas não conseguimos.Ele escapou de Bagdá e deslocou-se por todo o país como uma chama de guerra, despertando as tribos."  Seu nome era Sayyid Muhammad al-Sadr e é seu descendente, Muqtadar al-Sadr, quem de igual modo incomoda os ocupantes.

Enfrentando problemas cada vez mais crescentes de violência anti-colonial no que hoje é conhecido como Triângulo Sunita, os ingleses foram buscar o cel. Gerald Leachman, um especialista em acabar com revoltas nativas nos mais distantes cantos do império. Seus métodos eram eficazes, porém brutais, tendo dito que "a única forma de lidar com as tribos é a matança em grande escala."

No entanto, foi Leachman quem foi assassinado por um clérigo chamado shaykh Dhari. A morte de Leachman fez de Dhari um herói e desencadeou uma revolta que custou as vidas de 10.000 iraquianos e 1.000 soldados ingleses. Hoje, o shaykh Harith al-Dhari, descendente do assassino de Leachman, dirige a Associação de Estudiosos Islâmicos - a organização que é vista como a "a face pública" da rebelião sunita e  lidera a comunidade sunita do Iraque.

Winston Churchill, ministro das colônias, ordenou o uso de gás venenoso e um violento bombardeio aéreo para acabar com o levante. Milhares de homens, mulheres e crianças foram mortos, enquanto acusava seus críticos de serem homens que "não pensam com clareza" e que ele não se importava de "usar gás venenoso contra tribos selvagens". Arthur "Bomber" Harris, o herói inglês da Força Aérea, inspecionou a campanha de bombardeios, colocando em seu diário "agora os árabes e os curdos conhecerão o que significa um bombardeio de verdade em termos de mortes e danos. Em 45 minutos uma aldeia inteira pode ser praticamente varrida e um terço dos habitantes mortos ou feridos por quatro ou cinco máquinas." Uma daquelas aldeias é, atualmente, a cidade de Fallujah.

Da mesma forma que a indicação de Iyyad Allawi no Iraque e Hamid Karzai no Afeganistão, a Inglaterra colocou o até então desconhecido "príncipe" Faisal como rei. Em 1930, Faisal assinou um "tratado" que concedia um simulacro de independência, mas que assegurava á Inglaterra manter o controle do país, com uma presença militar continuada e a administração da produção de petróleo do Iraque.

O povo iraquiano se revoltou contra a dinastia Faisal apoiada pelos ingleses em 1930, 1941, 1948 e 1956. Em 1958, um golpe militar finalmente destronou o rei e seu primeiro-ministro.

Depois de saquear a embaixada inglesa, a população se reuniu diante da estátua do gal. Stanley Maude, seu "libertador". Finalmente livres da ocupação britânica, eles derrubaram a estátua e a reduziram a pedaços.

Embora a bandeira enfeitada pelas bombas tenha mudado, a ocupação de hoje lembra a experiência britânica de ontem com uma sinistra precisão - desde os locais até os descendentes dos líderes da revolta contra a ocupação. À medida em que a rebelião se espalha e ganha apoios, os Estados Unidos e seus aliados irão aprender a mesma lição da história aprendida pelo Império Britânico: um povo não pode sofrer ocupação indefinidamente. Quanto ao resto de nós, podemos aprender que a única coisa que a história sempre nos ensina é que nada aprendemos com ela. 

(*) Amir Butler é diretor executivo do Australian Muslim Public Affairs Committee (AMPAC) e pode ser contatado através do e-mail abutler@muslimaffairs.com.au

 

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