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ATUALIDADES

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LIBERDADE DE EXPRESSÃO

(*) Por Robert Fisk

Robert Fisk: "Estou sendo difamado por dizer a verdade sobre os palestinos. Os insultos dirigidos a qualquer um que ouse criticar Israel estão assumindo proporções macartistas."

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Na floresta do Oriente Médio, um jornalista só pode esperar pau e pedra. Um cartunista de um jornal do Bahrein me desenhou como um cão raivoso (próprio para o extermínio) e um colunista do Cairo disse que eu era um "corvo bicando o cadáver do Egito".

Mas o grau de insulto e ameaças explícitas que agora são dirigidas a qualquer um - acadêmicos, analistas, repórteres - que ousam criticar Israel (ou dizer a verdade sobre a revolta palestina) está assumindo proporções macartistas. Tome-se como exemplo Edward Said, o brilhante acadêmico palestino, que é professor da Universidade de Colúmbia.

Ele vem enfrentando pressões da Organização Sionista da América, que no ano passado exigiu que ele fosse demitido da Associação de Línguas Modernas e que agora exige sua demissão como professor da universidade - unicamente porque ele mostra, com uma ferocidade clínica e exatidão dolorosa, a tragédia histórica da expoliação palestina, a brutalidade da ocupação continuada dos israelenses e a falência do processo de "paz" de Oslo. A Universidade de Colúmbia publicou uma defesa sem precedentes em favor de Said e "dos valores fundamentais de uma grande universidade", citando John Stuart Mill e acrescentando que, aceitar a exigência do lobby judeu, seria "uma ameaça para todos nós e para a liberdade acadêmica".

É bem verdadeiro. Noam Chomsky, ele próprio um judeu, é um dos filósofos mais profundos de nossa época, mas sua crítica mordaz sobre a ocupação israelense e a cegueira americana, o apoio irrestrito a Israel, trouxe-lhe os mais impiedosos ataquess. Nos Estados Unidos, escreveu ele recentemente, toda uma população é mantida na ignorância dos fatos porque "os programas militar e econômico (de Israel) contam decisivamente com a ajuda americana, que é internamente impopular e que seria muito mais se seus propósitos fossem conhecidos".

A ignorância sobre o Oriente Médio está tão firmemente enraizada nos Estados Unidos que somente uns poucos jornais pequenos relatam alguma coisa diferente do ponto de vista de Israel. Chomsky não será encontrado no The New York Times. Charles Reese colocou muito bem, em uma recente edição do Orlando Sentinel, que "os palestinos não alcançarão sua independência enquanto os americanos não alcançarem a deles".

Mas a tentativa para forçar a mídia a obedecer às normas de Israel agora é internacional. Temos que dizer que Israel está sitiado pelos palestinos (em lugar de falar da ocupação do território palestino por Israel), que os palestinos são responsáveis pela violência (muito embora os palestinos sejam a vítima principal), que Arafat perdeu um grande negócio em Camp David (embora lhe tivesse sido oferecido apenas 60% de sua terra e não 94%), e que os palestinos estimulam o sacrifício de crianças (em lugar de questionar as tropas israelenses que balearam tantas crianças palestinas).

Os embaixadores israelenses e os lobistas de Israel nunca fizeram tantas visitas aos escritórios de jornais europeus como agora, para se queixarem dos relatos ou dos repórteres, alguns de forma bastante infamante. O Johannesburg Star, uma co-irmã do The Independent, que publica minhas reportagens sobre o Oriente Médio, este ano foi confrontado por um grupo pró-Israel, que alegava que eu estava, de alguma forma, ajudando o historiador de direita, David Irving, uma pessoa que jamais vi em minha vida e que não pretendo encontrar. Em seguida, eles retiraram a alegação.

Então, uma coisa estranha aconteceu na Irlanda, durante uma cerimônia de entrega de prêmios em memória de um jornalista de Belfast. Mark Sofer, embaixador de Israel em Dublin, tinha sido convidado para falar sobre as reportagens em zonas de conflito, para estudantes de jornalismo, sob os auspícios da Cooperation Ireland, um movimento sem fins lucrativos, dedicado a fomentar as relações norte-sul. Mas, num determinado momento, ele preferiu aproveitar a oportunidade para atacar meu trabalho sobre o Oriente Médio, e sugerir que não deveria ser lido ou ser levado em conta. Mr. Sofer está, é claro, autorizado a ter seus pontos de vistas, mas não a ventilar seus preconceitos em um foro de caridade, sem permitir o direito de resposta. A Cooperation declarou que estava "inteiramente dissociada" das observações do embaixador. Assim deve ser.

E, no entanto, a coisa continua. Na África do Sul, na Europa, na Austrália - eu ainda guardo as cinco páginas de insultos publicados em uma revista por um grupo lobista australiano, sob o título "O Escriba Ignóbil" e me acusando de "um espanto de auto-engano". Estranhamente, podemos conhecer melhor a imprensa israelense do que a mídia americana. A brutalidade dos soldados israelenses é coberta inteiramente pelo Ha'aretz, que também fala da grande quantidade de negociadores americanos que são judeus. Há quatro anos atrás, um ex-soldado israelense descreveu em um jornal israelense como seus homens saquearam uma vila no sul do Líbano; quando o artigo ia ser publicado no The New York Times, o episódio do saque foi censurado e tirado do texto.

Portanto, eis aqui uma questão final. Se os embaixadores e lobistas árabes se comportassem como seus oponentes israelenses, nós os ouviríamos? Nós os respeitaríamos? Correríamos para cobrir e editar apenas um lado da história?

13/12/00

Robert Fisk é um conhecido jornalista inglês, que escreve regularmente para o The Independent. Mais artigos dele podem ser encontrados em

http://www.independent.co.uk/news/World/Middle_East/2000-10/fisk021000.shtml

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