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ATUALIDADES

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INUTILIDADE DA SOLUÇÃO DOS DOIS ESTADOS

(*) Por Khalid Amayreh

Não é difícil perceber o que levou o regime sionista a adotar a chamada solução dos dois estados como o projeto político mais oportuno para acabar com a questão palestina. Todos sabemos que, alcançar a verdadeira paz com os palestinos e os outros árabes e muçulmanos  da região, nunca foi uma preocupação real para os sionistas.

Na verdade, décadas de beligerância, agressão e alianças hostis, são provas irrefutáveis  da aversão sionista à paz e à coexistência pacífica com seus vizinhos. Além do mais, não parece que os líderes israelenses de direita e de esquerda de repente se transformaram em verdadeiros amantes da paz, que acreditam na generosidade e não auto-abnegação.

Os sionistas, na verdade, percebem muito bem que a solução dos dois estados nada mais é do que um eufemismo para a liquidação da questão da Palestina. Eles estão absolutamente certos. A solução dos dois estados impossibilitará o estado judeu de apropriar-se de 80%-84% da Palestina e nega à grande massa de refugiados palestinos, estimada em 4 a 5 milhões, o direito inalienável de retornar para suas cidades natais e vilarejos, de onde foram expulsos pelas tropas sionistas, ou fugiram de medo, quando o regime sionista se estabeleceu em 1948.

Além do mais, o arranjo escandaloso possivelmente permitiria aos sionistas, talvez em algum momento no futuro, deportar a já considerável e crescente população palestina,  vivendo na Palestina antes de 1967, para o Estado Palestino adjacente, na base do "este é nosso estado e aquele é o de vocês".

Geográfica e demograficamente, a solução dos dois estados nada mais é do um gigantesco escândalo. Os aproximadamente 8 milhões de palestinos de todo o mundo receberiam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, que representam menos de 22% de toda a Palestina e que já está bastante congestionada em termos de condições de vida (a Faixa de Gaza tem a mais elevada densidade populacional da terra).

Em contraste, os estimados 5 milhões de judeus, que vivem agora na Palestina, receberiam os restantes 78%, juntamente com a parte do leão, ou seja, recursos hídricos e econômicos, terras agriculturáveis e outros elementos de infraestrutura básica, para tornar o estado viável e sustentável.

Mais do que isso, a perspectiva para a solução dos dois estados parece sombria e desanimadora para os palestinos, se um número significativo de assentamentos de judeus tiver a permissão de permanecer na Cisjordânia, porque, então não estaríamos falando da perspectiva de um estado sério, ou até de um quase estado, e sim de uma grande piada, mesmo que metaforicamente chamada de Estado Palestino e celebrado pelas capitais do mundo como a personificação e consumação última do anseio nacional palestino de liberdade e libertação.

Que lógica existe em se aceitar tal distorção obscena? Será que a liderança palestina seria tão crédula e tão cega para ceder nos direitos palestinos? Na verdade, que espécie de paz emanaria da perpetuação de tais iniquidades e injustiças que os palestinos suportaram (e ainda continuam a suportar) desde o nascimento mal feito do regime sionista, a fonte de todos os males da região?

Além disso, que direito tem a Autoridade Palestina e seu líder idoso, Yasser Arafat, de permitir a limpeza étnica para ganhar? Não têm qualquer direito e isto deve ser dito com todas as letras a Arafat e seus conselheiros.

Não estamos aqui falando só de valores simbólicos e sim de direitos materiais tangíveis que não ficaram obsoletos com a passagem do tempo.

Claramente, a recente assinatura do compromisso de retorno pelos inúmeros refugiados palestinos na Palestina, assim como pelos palestinos da Diáspora, é uma mensagem evidente para o mundo de que os ladrões sionistas têm que devolver tudo o que roubaram de seus proprietários originais. Ou então, como poderia haver uma paz verdadeira digna desse nome?

Uma paz que seja construída na perpetuação e legitimização da maior pilhagem da história, ainda que sustentado por um poder militar absoluto e pelo suborno econômico. não durará por muito tempo.

A solução humana e equitativa exige, necessariamente, a dissolução e desmantelamento do regime sionista (Israel) e o estabelecimento, na Palestina, de um estado civil multiétnico, multirreligioso, não racista, democrático, no qual judeus, muçulmanos e cristãos convivam em paz e igualdade.

Assim deve ser o Estado da Palestina, de, para e por todos seus cidadãos, independentemente de raça ou fé. Um estado onde as liberdades religiosas e a justiça sejam garantidas para todos. Um estado sem postos de fiscalização e estradas bloqueadas e sem um sistema de justiça baseado no racismo maléfico, onde matadores de crianças permanecem livres porque a vítima é vista como um criança de um Deus menor e o assassino um membro de uma raça escolhida.

Por que um estado igualitário como esse não pode ser uma alternativa mais humana, em lugar de uma Palestina dividida em dois estados, carregada de um imenso inventário de amargura mútua e inimizades latentes, aguardando a primeira oportunidade histórica para explodir em uma nova guerra?


Fonte: Palestine Times, fevereiro de 2001 (Ptimes.com)

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* Khalid Amayreh vive na cidade de Al Kahlil (Hebron), na Cisjordânia e é editor-chefe do Khalil Times.

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