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ATUALIDADES

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O LEGADO DE ARIEL SHARON

Por Robert Fisk

Este é um lugar de sujeira e sangue, que ficará associado para sempre a Ariel Sharon. Hoje em Israel, ele pode ser eleito primeiro ministro e será o senhor da nação mais poderosa do Oriente Médio; ele viajará à América, visitará a Casa Branca e apertará a mão do Presidente George W. Bush. Mas, para cada um que ficou nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, no dia 18 de setembro de 1982, seu nome é sinônimo de açougueiro, de cadáveres inchados e mulheres e crianças mortas, de estupro, saque e homicídio.

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Quando ando por essas ruas fétidas hoje, mais de 18 anos após o que foi, na  definição de Israel, o pior ato de terrorismo da história recente do Oriente médio, os fantasmas ainda me assombram. Mais a frente, ao lado da estrada que leva à mesquita de Sabra, está o sr. Nouri, 90 anos, barba grisalha, vestindo pijama, com um pequeno chapéu de lã na cabeça e uma bengala ao lado. Eu o encontrei deitado sobre uma pilha de lixo, os olhos cravados de mosca, olhando fixamente o sol ardente. Mais adiante no beco, topei com duas mulheres sentadas na vertical, com seus cérebros apagados, próximas a uma panela de cozinha e um cavalo morto. Uma das mulheres parecia ter tido seu estômago aberto. A poucos metros, descobri o primeiro dos bebês, já negro pela decomposição, espalhado pela estrada como um lixo.

Sim, aqueles de nós que conseguimos entrar em Sabra e Chatila antes de os assassinos partirem, temos nossas lembranças. As moscas voando entre corpos empesteados e nossos rostos, entre o sangue seco e o notebook do repórter, os ponteiros dos relógios ainda funcionando nos pulsos mortos. Trepei sobre um monte de terra de uma escavadeira abandonada que permanecia culpada, perto, apenas para constatar que eu estava no alto do monte, que oscilava debaixo de mim. E eu olhei para baixo para encontrar rostos, cotovelos, bocas, as pernas de uma mulher saindo do solo. Tive que me segurar nestes pedaços de corpos para descer para o outro lado. Então, encontrei uma menina bonita, sua cabeça envolta por uma auréola de roupas penduradas, seu sangue ainda escorrendo de um buraco em suas costas. Entramos no quintal de sua casa, desesperados para evitar os milicianos israelitas uniformizados que ainda vagueavam pelo campo; ao entrarmos pela porta dos fundos, encontramos seu corpo porque os assassinos tinham saído pela porta da frente.

E à medida que eu andava por aquela carnificina do dia 18 de setembro (o último dia dos três dias de massacre) com Loren Jenkins, do Washington Post, um repórter duro e violento do Colorado, lembrei como ele parou, em estado de choque e enojado. E, então, com o máximo de energia que seus pulmões permitiram, ele inspirou aquele ar sujo, e gritou "SHARON" tão alto que o nome ecoou pelos escombros acima dos corpos. "Ele é o responsável por esta loucura", rugiu Jenkins. E isto, apenas 4 meses mais tarde em palavras mais diplomáticas e num relatório onde os assassinos foram chamados de "soldados", foi o que a Comissão de Inquérito decidiu. Sharon, que era Ministro da Defesa, segundo declaração da Comissão Kahan, levou a "responsabilidade pessoal",  e foi recomendada sua remoção do cargo. Sharon renunciou.

E assim, hoje, neste lugar fétido e horrível, onde milicianos muçulmanos libaneses estiveram três anos mais tarde para matar mais palestinos, numa guerra que não produziu qualquer investigação oficial, onde quase 20% dos sobreviventes ainda estão vivos, onde o lixo e a lama agora cobrem a cova comum de 600 vítimas de 1982, os palestinos esperam para ver se seu torturador conquistará o mais alto posto do estado de Israel.

"Ariel Sharon foi o responsável", um rapaz bem vestido gritava para nós da varanda de um apartamento, ontem de manhã. E quem discorda? Israel invadiu o Líbano em 6 de junho de 1982, com um plano conhecido de Sharon, mas sem a permissão do seu primeiro ministro, Menachem Begin, do Likud, para avançar até Beirute e cercar as guerrilhas da OLP de Arafat, na capital libanesa. Oficialmente denominada de "Operação Paz para a Galiléia" (o verdadeiro codinome militar era "Bola de Neve"), a invasão foi supostamente uma resposta aos ataques de foguetes da OLP às fronteiras israelenses.

Mas os ataques foram posteriores a uma série de ataques aéreos israelenses sobre o Líbano, que terminaram com cessar-fogo negociado pela ONU e que foram em "retaliação" a uma suposta tentativa de assassinato do embaixador israelense em Londres, embora seus quase assassinos fossem do grupo Abu Nidal, que não tinha nada a ver com a OLP, e que odiava Arafat. Mas Sharon tinha recebido um "sinal verde" americano de Alexander Haig, na primavera de 1982, para a sua operação. Após dois meses, e quase 17.000 mortes, muitas delas civis mortos na grande maioria pelas armas e ataques aéreos israelenses, a OLP se retirou de Beirute sob proteção internacional, deixando as famílias desarmadas para trás. Neste ponto, Sharon anunciou que 2.000 "terroristas" ainda permaneciam nos campos de Sabra e Chatila. Estes "terroristas" míticos induziram a um pequeno avanço dos tanques israelenses, contrário a um acordo com Washington em relação aos campos palestinos. Um funcionário francês da ONU, que tentava fotografar a movimentação, foi morto por um tiro disparado por um atirador "desconhecido". Sharon repetia sua afirmação extraordinária de que "terroristas" permaneciam nos campos. E foi quando o presidente libanês cristão, Bashir Gemayel, o líder da milícia Falange, que já tinha matado milhares de palestinos rendidos no campo de Tel el-Zaatar, em 1976, foi assassinado.

Sharon prestou suas condolências ao pai de Gemayel, Pierre. Ele deve conhecer a história do velho homem. Pierre Gemayel tinha fundado seu partido, após inspirar-se nas Olimpíadas da Alemanha nazista, em 1936 ("Gostava da idéia de ordem", certa vez ele me confidenciou). Não é {a toa que a milícia aliada a Israel se intitula   "Falange". Quando os cristãos se preparavam para enterrar seu herói, Sharon, mais uma vez contra as garantias que ele tinha dado aos americanos, ordenou que o exército israelense entrasse na parte oeste de Beirute para "restabelecer a ordem". Os israelenses então pediram aos falangistas cristãos, armados e uniformizados por Israel e aliado a Israel desde 1976, que entrassem nos campos para "liquidar" os "terroristas". Por isso que, na terça-feira, 16 de setembro, guiados por sinalizadores colocados no caminho de um aeroporto de Beirute, os atiradores cristãos caminharam para a entrada sul de Chatila, alguns deles bêbados, outros drogados, e embarcaram num crime de guerra.

Hoje, muito marcados pelas últimas guerras, os becos de Chatila ainda dispõem dos mesmos caminhos que andei há 18 anos atrás. Existem sempre sobreviventes que nunca nos contaram suas estórias. Ontem, eu perambulava por uma viela, ondulada pelos canos de água e com a chuva e os dejetos correndo, para encontrar uma mulher de meia-idade comprando tomates em uma barraca. Eu estava a 30 metros da rua onde eu tinha descoberto o corpo do Sr. Nouri, há quase duas décadas atrás. Ela me levou até sua casa e me apresentou sua filha, Nadia Salameh. Nadia tinha apenas 12 anos quando os soldados de Ariel Sharon espiavam a milícia falangista matar tudo o que encontravam nos campos.

"No final desta viela, fora de nossa casa, ficamos todos chocados com o que vimos", ela me disse, sua voz se elevando lentamente ante a recordação do horror. "Eu vi cadáveres lá, alguns decapitados, outros com as gargantas abertas. Uma de nossas vizinhas estava deitada ali, Um Ahmed Saad, e seu corpo estava inchado por causa do calor. Suas mãos tinham sido cortadas na altura dos pulsos. Ela costumava usar uma porção de braceletes, alguns de ouro. É claro que a falange queria o ouro."

Em cada casa que entro vejo fotografias amareladas de rapazes mortos na guerra, alguns pelos aliados israelenses, outros pelos atiradores xiitas muçulmanos, na guerra de 1985. Mas a recordação deles não se apagou. O velho Abdullah, que está com 78 anos e nos suplicou que não para não usar seu nome de família, conversa sem olhar para mim, com os olhos fixos na parede. Os fantasmas estão retornando mais uma vez.: "A Falange era chefiada por Eli Hobeika", disse ele, "mas quem os enviou para os campos? Os israelenses. E quem era o ministro da Defesa? Sharon. Eles colocaram seus tanques em torno do campo. Eu fazia parte de uma delegação que tentava negociar com eles. Nós levávamos uma bandeira branca. Quando nos aproximamos, ouvimos a voz de um homem com um megafone, que dizia para ter à mão nossos cartões de identidade. Mas, eu não tinha a minha identidade. Assim, voltei para casa. O megafone estava sendo usado por um falangista. E eles assassinaram todos os homens da delegação. Fui o único que sobreviveu."

Não há dúvida de que os israelenses podiam ver o que os falangistas cristãos libaneses estavam fazendo. A comissão Kahan mencionou mais tarde o Tenente Avi Grabovski, comandante de uma unidade de tanques israelense que ajudava a cercar o campo: ele viu a matança de 5 mulheres e crianças e quis protestar, mas o comandante de seu batalhão respondeu a um outro soldado que se queixava que "sabemos, não é nosso gosto e não interfira". Mais de 2.000 palestinos foram mortos, duas covas coletivas permanecem sem exumação em Beirute e a reputação de Sharon, já manchada pelo massacre anterior de mais de 50 palestinos civis por sua Unidade de Comando 101, parecia tão enterrada quanto as vítimas palestinas.

Mas, como o lixo que foi recolhido da única cova coletiva conhecida, a narrativa histórica resgatada por aqueles sobreviventes ficou encoberta. A história caminha. Arafat reconheceu Israel e se viu apanhado numa armadilha por um acordo que não lhe dará a verdadeira "Palestina" nem assegura o retorno dos refugiados, inclusive os de Sabra e Chatila, para o que hoje é Israel. E o novo líder de Israel, dentro de poucas horas, provavelmente será o homem que permitiu que assassinos entrassem nos campos de Beirute há mais de 18 anos atrás.

Com a força, é claro, vem o respeito. A CNN agora chama Sharon de "um general veterano que construiu uma reputação por superar obstáculos e remodelar a paisagem de Israel", enquanto que a BBC World Service de domingo conseguiu evitar as palavras fatais Sabra e Chatila, para se referir apenas à "sua carreira militar acidentada". Quanto a Nadia Salameh, "o papel de Sharon aqui mostra do que ele é capaz. Se Sharon for eleito, todo o processo de paz fracassará porque ele não quer a paz". É um alívio recordar que mais de 1 milhão de israelenses demonstraram sua integridade moral em 1982, protestando em Tel Aviv contra o massacre. E é igualmente arrepiante pensar que alguns daqueles 1 milhão, se as pesquisas estiverem certas, poderão estar votando em Sharon hoje.

6 de fevereiro de 2001

http://www.independent.co.uk/news/World/Middle_East/2001-02/fisk060201.shtml

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