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ATUALIDADES

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A MULHER NO ISLAM

Por Mônica Muniz

Recentemente participei de um workshop sobre o Islam, onde a platéia era composta, em sua maioria, de não muçulmanos. Apesar do desconhecimento geral do que seja o Islam, seus princípios, suas normas, sua história, a preocupação básica acabou ficando centrada na questão da mulher. Suas limitações, restrições, proibições, a roupa e sua sexualidade.

Claramente observa-se uma confusão entre os aspectos sócio-culturais característicos das regiões habitadas por sociedades muçulmanas e os valores islâmicos. Credita-se ao Islam práticas e costumes que datam dos tempos pré-islâmicos, ou, então, conceitos enraizados no ocidente e que são parte de uma cultura judaico-cristã que tão fortemente influenciou a formação das sociedades ocidentais. Confunde-se a cultura árabe com Islam. Não se percebe que africanos, turcos, persas, curdos, chechenos também são muçulmanos embora de origens, culturas, tradições diferentes das dos árabes. E, o mais impressionante de tudo, apesar de mais de dois séculos passados, continua a ver-se o mundo a partir de uma visão do colonizador "branco", nós, o ocidente, os civilizados, os cultos, e eles, o oriente, os bárbaros, os incultos. Através de um processo de apagamento das identidades culturais, elimina-se da memória ocidental a enorme contribuição islâmica para as ciências, as artes, a literatura, a arquitetura, a filosofia, a medicina, a história, a geografia, etc.

Refletindo essa visão etnocentrista, a mídia faz a sua parte, promove preconceitos, salienta as diferenças, distorce, confunde, assegura que as pessoas sejam mantidas na ignorância dos fatos, enfim, aprofunda o apartheid. Ao rotular os aspectos culturais e sociais específicos de cada região como valores islâmicos, retira toda a importância histórica do Islam, que passa a ser visto como sinônimo de fanatismo, exotismo, um mundo estranho, de homens e mulheres estranhos, vivendo numa terra estranha.

Quanto a nós, os muçulmanos, temos todo um discurso bem preparado que não vai além da retórica, que apenas revela a enorme distância entre a teoria e a prática. Repetimos à exaustão todos os direitos concedidos pelo Islam às mulheres, mas esbarramos na prática contraditória de alguns países ditos islâmicos. Nós, os muçulmanos, perdemos a visão crítica do nosso próprio mundo e nos eximimos da responsabilidade por este estado de coisas. Em nossa postura de defesa intransigente do Islam, somos inclinados a negar as flagrantes infringências aos princípios islâmicos. Negar essa realidade não ajuda a resolver o problema. Do contingente de analfabetos no mundo todo, por exemplo, o percentual maior está entre as mulheres e, dentre estas, grande parte em sociedades ditas islâmicas. Nessas sociedades, as mulheres são mantidas intencionalmente na ignorância de seus direitos e acabam por buscar caminhos alternativos fora do Islam, exatamente por absoluto desconhecimento de que a verdadeira liberdade está no próprio Islam.

No imaginário da mulher muçulmana, a mulher ocidental conquistou sua independência e dignidade e acaba por se transformar no ideal a ser perseguido. Com isso, aquelas mulheres valorosas, companheiras, corajosas, que lutavam ao lado de seu Profeta, ficaram lá para trás e hoje são apenas referências históricas de uma época de que nos orgulhamos, mas que somos incapazes de resgatar e colocar em prática.

O Islam não discrimina, não prega o fanatismo e não oprime a mulher. O Islam, ao legislar sobre os direitos da mulher, estabeleceu a equidade entre homens e mulheres e as diferenças que existem se dão nos aspectos físicos e biológicos. Não é a natureza humana, e sim a cultura dominante, quem define se uma sociedade é machista ou igualitária em essência. São os processos históricos que estruturam a organização social dos povos. Uma sociedade igualitária não exige que homens e mulheres sejam idênticos em todos os aspectos e sim que sejam iguais em oportunidades. E essa é que deve ser a nossa luta como muçulmanos, vencer as barreiras sócio-culturais e criar as condições para a formação de uma sociedade igualitária, verdadeiramente islâmica, onde a mulher muçulmana possa exercer plenamente os direitos que lhes foram assegurados por Deus há 1400 anos atrás.

Os muçulmanos esclarecidos sabem que as mulheres não são tratadas equitativamente, nos moldes estabelecidos no Alcorão e nos diversos exemplos deixados pelo Profeta Mohammad. Influências culturais, econômicas e políticas manifestaram-se na construção da mulher muçulmana através do tempo, sempre no sentido de esvaziá-la de um suposto poder ameaçador. Os direitos da mulher muçulmana em algumas sociedades islâmicas só existem na teoria e sua luta é no sentido de resgatar todo um legado histórico que é seu, de fato e de direito. Achar que a luta da mulher muçulmana se limita a um pedaço de pano é incorrer no mesmo erro do ocidente que só percebe, ou só quer perceber, os aspectos externos do Islam.

Em seu processo de libertação, a mulher ocidental buscou seus caminhos numa época em que o Islam não estava presente na Europa. O movimento feminista ocidental teve como uma de suas mais importantes metas a erradicação das desigualdades impostas às mulheres pela lei inglesa. No entanto, ao reivindicarem uma igualdade de direitos, as mulheres não foram além da exigência de participação da mulher no universo masculino, o que, de uma certa forma, acabou fortalecendo o poder masculino. Não conseguiram libertar-se das marcas sociais que lhe são atribuídas pela cultura dominante, de que é exemplo a dupla jornada de trabalho. Nas sociedades ocidentais, as 24 horas do dia são insuficientes para uma mulher a quem se exige que seja esposa e mãe, provedora do lar, e que, ao final do dia esteja disponível para o marido, após um dia extenuante de mil e uma atividades. Alguém, ou alguma coisa, sai perdendo nessa história.

É preciso que se diga que as mulheres muçulmanas que buscam a igualdade social com os homens não estão querendo tomar o poder na sociedade, mas sim reivindicando a voz que o Islam lhes deu. O Islam define homens e mulheres como iguais e explica que cada um é abençoado por características especiais particulares, com as quais podem contribuir para a sociedade. O que falta em um, o outro complementa e vice-versa. O que importa é que haja um equilíbrio sábio nessa divisão de responsabilidades e que seja compatível com a orientação islâmica.

Uma sociedade onde a mulher desempenhe um papel social ativo não tem nada a ver com uma sociedade imoral ou permissiva. Possibilitar a formação de uma sociedade na qual homens e mulheres possam usufruir seus direitos humanos e islâmicos não implica na aceitação de padrões outros que não os islâmicos.

A mulher muçulmana já começou o seu movimento de libertação independentemente da participação ou não do homem. É irreversível. Por isso, é preciso que o homem muçulmano comece o seu processo de voltar-se para as próprias entranhas, assuma a sua parcela de responsabilidade pelos erros e acertos e que, principalmente, tenha um olhar mais generoso para com as suas companheiras nessa vida. O homem tem o conhecimento que lhe foi dado através dos tempos e a mulher tem a sabedoria de toda uma existência sofrida. É juntando conhecimento e sabedoria que vamos resgatar os primeiros dias do Islam de que nos orgulhamos tanto.

 



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