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ATUALIDADES

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ASCENSÃO E QUEDA DA CASA DO ORIENTE

O fechamento de instituições palestinas na Jerusalém Oriental por Israel, está sendo interpretado por muitos na Cisjordânia e Faixa de Gaza como o fim do processo de paz.

Por Danny Rubinstein, 13/08/01 - Haaretz

Toda a área em volta da Casa do Oriente, em Jerusalém Oriental, já estava fechada por decreto militar desde sábado. Centenas de policiais israelenses e pessoal de segurança colocaram vários blocos de cimento ao longo das ruas que passam pelo quarteirão Wadi Joz, pela Estrada de Nablus e pela Câmara de Comércio de Jerusalém Oriental, que também foi fechada. Na esquina da rua Abu Obeidah bin al-Jerakh (um dos primeiros generais do exército do profeta Mohammad), onde está localizada a Casa do Oriente, um pequeno grupo de jovens italianos estava protestando naquela manhã contra as medidas tomadas por Israel em Jerusalém. Entre os manifestantes, estava Abd el-Kadr al-Husseini, o filho mais novo de Faisal al-Husseini, que morreu há aproximadamente dois meses atrás.

A maior parte do terreno em volta da Casa do Oriente ainda pertence à família Husseini, uma das maiores e mais conhecidas famílias árabes de Jerusalém. A primeira casa no lado norte da rua Abu Obeidah, foi construída há 150 anos por Rabah al-Husseini em um lote de 2 acres, e hoje, aloja o American Colony Hotel. O prédio mais antigo no centro do complexo hoteleiro, já foi a casa de Rabah al-Husseini. Há cerca de 100 anos atrás, Musa Kazem al-Husseini construiu sua casa na parte mais ampla, próximo à entrada. Agora é a Escola Dar el Tifl (Casa da Criança). Musa foi o prefeito de Jerusalém no início do século XX e era o avô de Faisal.

No lado sul da rua, em oposição à casa, Ismail al-Husseini construiu sua grande mansão em 1897. É esta casa que ficou conhecida como a Casa do Oriente. A entrada para os três prédios históricos está abaixo de uma arcada ornamentada com enfeites de madeira. Através dos anos, o prédio e o complexo em torno tornou-se um símbolo nacional para os árabes de Jerusalém. A sede do governante palestino de Abu Dis, que também foi fechada na manhã de sexta-feira, e a Câmara de Comércio de Jerusalém Oriental desempenharam um papel importante no cotidiano dos árabes de Jerusalém. Mas a disputa sobre a Casa do Oriente, que continuou por mais ou menos 20 anos, fez com que a instituição ficasse muito conhecida na mídia internacional e nos meios diplomáticos e, por isso, de grande importância política.

Durante a Guerra de Independência  de 1948, as mansões da família al-Husseini serviram como estruturas públicas e ajudaram no esforço de guerra. Órfãos e refugiados de Deir Yassim ficaram asilados na casa de Musa Kazem. Na casa de Ismail al-Husseini, foram criadas uma clínica e um lar para os árabes convalescentes dos ferimentos de guerra.

Após a guerra, uma pequena pensão chamada Nova Casa do Oriente foi aberta no prédio e foram construídas estruturas   adicionais no pátio interior e que foram alugadas como escritórios. Após a guerra de 1967, a parte superior da Casa do Oriente foi arrendada pela Agência de Assistência da ONU (UNWRA), que ainda funciona no local. Um dos escritórios do pátio interno foi alugado durante os anos 70 para uma companhia de cinema israelense que criou, entre outras coisas, "Pillar of Fire" (Amud Ha'esh), um documentário em série, produzido pela televisão estatal, sobre a história do sionismo.

Em 1983, todo o prédio atrás da Casa do Oriente foi alugado para a Sociedade de Estudos Árabes, que foi fundada e era administrada por Faisal al-Husseini. A sociedade criou um arquivo e uma biblioteca, que pretendiam documentar a história dos árabes da Palestina. Era evidente que a instituição pretendia criar uma base mais ampla para a consciência nacional palestina, e muito de seu orçamento vinha direta ou indiretamente do erário da OLP.

Tudo isto levou os sucessivos governos de Israel a empreenderem uma luta prolongada contra a sociedade e seu presidente. Faisal al-Husseini foi preso diversas vezes e a sociedade suspendeu suas atividades. Durante a primeira Intifada, os escritórios da sociedade foram fechados por um período de 3 anos, aproximadamente.

Diplomatas vêm e vão.

A Casa do Oriente tornou-se um nome familiar em meio ao conflito. Em 1991, Faisal al-Husseini desempenhou um papel fundamental na preparação da delegação palestina para a conferência de paz de Madri. A delegação foi formada na Casa do Oriente e foi dali que dezenas de delegados puseram-se a caminho para Amã, em seu trajeto para Madri, acompanhados de uma multidão calorosa.

Hatem Abd el-Kadr, que foi indicado como delegado de Jerusalém no Conselho Legislativo da Palestino (o parlamento palestino) e participou da delegação a Madri, disse na última sexta feira que, para ele, a Casa do Oriente não é só um símbolo nacional palestino, mas um símbolo do processo de paz. Por isso, a "reocupação da Casa do Oriente" (conforme descrito pela mídia palestina) e o fechamento de suas instituições estão sendo interpretados por muitos na Cisjordânia e Gaza, como o fim do processo de paz e a retomada do modelo pré-Oslo de ocupação. Ontem, Abd el-Kadr feriu-se ligeiramente  durante um protesto do lado de fora da Casa do Oriente.

Além da Sociedade de Estudos Árabes, dirigida por Ishaq Budeiri, que continuou a funcionar no prédio atrás da Casa do Oriente, existem diversos escritórios no complexo menor, que não estavam oficialmente ligados à Autoridade Palestina, mas sim à OLP. Esta diferenciação é  parte dos Acordos de Oslo, que estabeleceu que, até que o acordo definitivo ser alcançado, a Autoridade não operaria em Jerusalém, somente na Cisjordânia e Gaza. No entanto, aceitou-se que as instituições palestinas que estivessem funcionando em Jerusalém até a assinatura dos acordos, continuariam a operar na cidade.

A atividade palestina na Casa do Oriente foi, então, sancionada por um compromisso. Ambos os lados sabiam que as instituições eram de natureza nacionalista palestina mas permaneciam legalmente apartadas do governo palestino. Faisal al-Husseini, como presidente do "Conselho Nacional de Jerusalém" foi indicado por Arafat como membro do comitê executivo da OLP, em Jerusalém; ele estimulou as atividades da Casa do Oriente e a transformou em uma instituição importante.

A Casa do Oriente ficou mais conhecida por causa de seu departamento de relações internacionais (também conhecido como departamento diplomático), que era chefiado por Sharif al-Husseini. Este departamento recebia diplomatas de todas as partes do mundo para se encontrarem com representantes palestinos. A origem do reconhecimento internacional da Casa do Oriente também é bastante conhecida. Quase todos os países do mundo (inclusive os que mantêm relações de amizade com Israel, principalmente os Estados Unidos) não reconhecem a anexação de Jerusalém Oriental por Israel e até rejeitam a idéia de Jerusalém Ocidental como a capital de Israel.

Cônsules estrangeiros residentes em Jerusalém tornaram-se visitantes frequentes da Casa do Oriente. Principalmente durante as administrações de Peres e Rabin, eles traziam funcionários graduados de seus governos para uma visita. Muitos visitantes importantes de Israel, inclusive chefes de estado, encontravam-se com o presidente, o primeiro ministro e o ministro das relações exteriores de Israel, em Jerusalém Ocidental, e depois iam a Jerusalém Oriental para se encontrarem com al-Husseini e outros palestinos conhecidos na Casa do Oriente.

Para Israel, isto era uma situação humilhante, na qual a capital de Israel era uma cidade quase dividida, cuja parte oriental parecia estar sob um governo diferente, o palestino. O governo de Netanyahu, que se empenhou no fechamento da Casa do Oriente, não conseguiu, embora tivesse conseguido reduzir substancialmente o número de visitantes estrangeiros.

Uma outra instituição importante da Casa do Oriente, era o departamento geográfico, chefiado por Khalil Tufakji. Ele estava comprometido em fazer um levantamento do crescimento dos assentamentos por toda a Cisjordânia e fazer um esforço concentrado para registrar tudo o que tivesse relação com a propriedade e posse de Jerusalém Oriental. Em anos recentes, o departamento de Tufakji também começou a criar um registro das propriedades pertencentes aos árabes antes de 1948. "Se os israelenses estão levantando os bens de Jerusalém Oriental pertencentes aos judeus, porque nós não devemos exigir os bens árabes da parte ocidental da cidade?", perguntou Husseini.

A Casa do Oriente também alojou departamentos de assuntos sociais, locais religiosos, de educação e saúde, mas suas atividades eram limitadas. Tudo era coordenado por Faisal al-Husseini, que era auxiliado por um conselho que ele criou, que incluía representantes de todas as correntes palestinas. O conselho tinha delegados do Hamas, das alas de esquerdas, e todos confiavam em al-Husseini.

Após sua morte, a atividade da Casa do Oriente começou a diminuir. No passado, vinham muitas pessoas para consultar o homem que foi o mais importante personagem palestino em Jerusalém. Husseini era procurado para resolver disputas, dar assistência financeira, conselho em questões familiares, problemas com a administração de Israel ou com a Autoridade Palestina, e ele tentava ajudar. Os diplomatas estrangeiros também vinham muitas vezes, eram funcionários graduados da igreja, delegações estrangeiras e israelenses que se tornaram seus amigos. O mais recente acontecimento na Casa do Oriente foi uma celebração que marcou o 40º dia da morte de Faisal al-Husseini. Aconteceu há cerca de um mês atrás, embora em escala reduzida, devido às restrições impostas pela polícia.


Extraído de ININ  http://www.egroups.com/messages/inin

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