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ATUALIDADES

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FALLUJAH 101

Uma lição da história sobre a cidade que estamos destruindo.

Por Rashid Khalidi (*)

Existe uma pequena cidade situada em uma das margens do Eufrates, que avança pelo grande deserto sírio. É uma das mais antigas rotas de comércio ligando as cidades dos oásis da província do Nejd. que hoje corresponde à Arábia Saudita, às grandes cidades de Alepo e Mosul ao norte. Também está situada na auto-estrada entre Bagdá e Amã. Esta cidade é uma encruzilhada.

Durante séculos as pessoas usaram esta auto-estrada indo do norte para sul e vice-versa. A cidade é como um porto de mar em meio a esse grande deserto, um lugar que liga as populações no que hoje é a Arábia Saudita, Síria, Iraque e Jordânia. Os habitantes da cidade estão ligados por laços tribais, familiares ou de casamento às pessoas desses países.

As idéias provenientes da parte oriental da Arábia Saudita no final do século XVIII,  as idéias wahabitas - de um homem chamado Mohammad Ibn ´Abd al-Wahhab - deitaram fortes raízes nessa cidade há mais de 200 anos. Em outras palavras, é um lugar onde o que chamamos de fundamentalismo salafi, ou idéias wahabitas, foi bem implantado por 10 gerações.

Também é a cidade onde, na primavera de 1920, T.E.Lawrence escreveu a seguinte passagem:

"A Inglaterra levou a Mesopotâmia para uma armadilha da qual será muito difícil escapar com dignidade e honra. E foi levada a isto por uma firme falta de informação. Os comunicados de Bagdá são atrasados, insinceros e incompletos. As coisas estão muito piores do que nos contam nosso governo, mais sangrentas e ineficientes do que o público sabe. É uma desgraça para nossos registros imperiais e logo podem também ser incendiadas por qualquer tratamento comum. Hoje não estamos muito longe do desastre. Nossos infelizes soldados, indianos e britânicos, sob as duras condições de clima e suprimentos, estão vigiando uma área imensa, pagando caro cada dia de suas vidas, por uma política errada da administração civil de Bagdá. Mas a responsabilidade, neste caso, não é do exército que agiu apenas a pedido das autoridades civis."

T.E. Lawrence, The Sunday Times, agosto de 1920

A Inglaterra enviou um famoso explorador e antigo oficial colonial, que tinha reprimido diversas insurreições nos mais diversos cantos do Império, o coronel Gerald Leachman, para subjugar esta parte incontrolável do Iraque.Leachman foi morto durante uma discussão com um líder local chamado shaykh Dhari. Sua morte deu origem a uma guerra que terminou custando as vidas de 10.000 iraquianos e mais de 1.000 soldados indianos e ingleses. Para assumir o controle sobre o Iraque, a Inglaterra usou seu poderio aéreo, bombardeando indiscriminadamente aquele lugar. A cidade hoje, tem o nome de Fallujah.

O neto de shaykh Dhari, atualmente um proeminente clérigo, ajudou a intermediar o fim do cerco dos fuzileiros americanos a Fallujah, em abril deste ano. Fallujah, portanto, personifica os vários aspectos tribais, religiosos e nacionais da história do Iraque.

O governo Bush não está criando no Oriente Médio o mundo de novo e sim levando adiante uma guerra em um lugar onde a história realmente importa.

Uma mudança para pior

Desde 1933, os Estados Unidos têm sido o poder maior no Oriente Médio,  quando um grupo de companhias petrolíferas americanas assinaram um contrato de exploração com a Arábia Saudita. A partir de 1942, os Estados Unidos passaram a dominar o Oriente Médio quando soldados americanos desembarcaram primeiro no norte da África e Irã e nunca mais deixaram a região. Em outras palavras, há 62 anos eles estão em diferentes partes do Oriente Médio.

Os Estados Unidos foram celebrados como uma potência, algumas vezes não colonial, outras anti-colonial, no Oriente Médio, conhecidos por mais de um século por seus esforços educacionais, médicos e de caridade. Desde a Guerra Fria, no entanto, os Estados Unidos vêm intervindo cada vez mais nos assuntos internos e conflitos da região. As coisas mudaram fundamentalmente para pior com a invasão e ocupação do Iraque, principalmente com a revelação de que o pretexto oferecido pelo governo Bush para a invasão era falso. E, em particular, com o crescimento da insatisfação iraquiana com a ocupação e com as imagens do caos infernal veiculadas pela televisão em todos os lugares do mundo, exceto nos Estados Unidos - graças ao excelente trabalho realizado pela mídia em manter os reais custos humanos do Iraque fora das telas de nossos aparelhos de TV.

Os Estados Unidos são percebidos como seguindo os passos das botas dos ocupantes coloniais ocidentais, de triste lembrança desde o Marrocos até ao Irã. O governo Bush marchou para o Iraque proclamando suas melhores intenções enquanto teimosamente se recusava a compreender que aos olhos dos iraquianos e da maior parte das populações do Oriente Médio são as ações e não as proclamadas intenções que contam. Não importa o que você diz sobre o que está sendo feito em Fallujah, onde soldados americanos iniciaram um ataque depois de semanas de bombardeio. O que importa é o que você está fazendo em Fallujah - e o que o povo vê que você está fazendo.

Abordagem com base na fé

A maioria dos especialistas em Oriente Médio nos Estados Unidos, tanto fora como dentro do governo, usando seus conhecimentos sobre a cultura, língua, história e política do Oriente Médio - e suas experiências também - concluíram que a maior parte das políticas adotadas para a região pelo governo Bush, no Iraque ou na Palestina, são danosas para os interesses dos Estados Unidos e para os povos da região. Alguns desses especialistas tiveram a ousadia de dizer isto, de afrontar o governo Bush e seus defensores, que estão comprometidos com o que eu chamaria de abordagem baseada na fé para a política do Oriente Médio.

Esses especialistas previram que seria difícil ocupar um país complexo e vasto como o Iraque, que era possível encontrar uma grande resistência na maior parte do país por parte da população e que a invasão e ocupação complicariam as relações americanas com outros países da região. Hoje parece claro que todos esses temores eram bem fundados.

Após 20 meses de ocupação, os Estados Unidos continuam a tomar decisões importantes no Iraque. Em lugar de o controle ser exercido por uma Autoridade Provisória da Coalizão, elas acontecem na maior embaixada dos Estados Unidos do mundo e sua equipe de mais de 3.000 funcionários. Pode-se ter certeza de que se os iraquianos tentassem pôr um fim à permanência dos soldados americanos, ou tentassem rasgar os contratos com a Halliburton e outras companhias americanas, ou adotassem qualquer outra medida que desagrade o governo Bush, eles seriam apresentados rapidamente pelo vice-rei dos Estados Unidos, o embaixador John Negroponte.

Nós, e mesmo o governo iraquiano e seu povo, fomos apanhados na armadilha de um pesadelo que parece não ter fim, em parte por causa daqueles especialistas que desafiaram as fantasias neo-conservadoras a respeito de soldados americanos sendo recebidos com arroz e flores e que simplesmente não se concretizaram. Eles advertiram que é impossível impor democracia pela força no Iraque. Mao Tse Tung disse que o poder político cresce apesar do barril de pólvora; ele não falou que a democracia poderia. E não pode.

O cheiro de hipocrisia surge quando os Estados Unidos, uma nação supostamente comprometida com a democratização e as reformas, não hesitam em aceitar regimes ditatoriais e autocráticos como os da Arábia Saudita, Egito, Tunísia e até mesmo a Líbia, só porque agem alinhados com as preocupações com segurança ou assinam contratos lucrativos para os interesses americanos. Os Estados Unidos alegam agir a favor da democracia embora aceitem Qadafi! Os povos do Oriente Médio percebem esta enorme diferença entre as palavras e os atos - mesmo que os americanos não percebam as coisas que estão sendo praticadas em nosso nome.

Na verdade, os Estados Unidos estão longe de um registro sólido na promoção da democracia no Oriente Médio. No início, eles começaram bem quando se opuseram ao governo colonial e promoveram a auto-determinação conforme os Quatorze Pontos do Presidente Wilson depois da I Guerra Mundial. Porém, quando os Estados Unidos voltaram ao Oriente Médio depois da II Guerra Mundial, logo apoiaram regimes anti-democráticos só porque eles permitiam acesso ao petróleo e bases militares.

Se prestarmos atenção, o que a administração Bush parece entender como democracia no Oriente Médio são aqueles governos que fazem o que os Estados Unidos querem.

Conquista e saque

A economia do Oriente Médio é um outro aspecto sobre  o qual ouvimos falar muito pouco em nossa mídia. Os americanos podem não saber mas o roubo da propriedade do povo iraquiano através da privatização foi fartamente registrado em todo Oriente Médio. Um caso recente envolveu a entrega da Iraqi Airways a um grupo investidor dirigido por uma família com estreitas relações com o regime de Saddam Hussein. A companhia aérea vale US$ 3 bilhões porque, além das paradas em toda a Europa e alguns aviões velhos, a Iraqi Airways é dona dos terrenos da maior parte dos aeroportos.

Casos assim, e há vários deles, provocam uma raiva profunda contra os Estados Unidos e despertam uma dura resistência para pressionar pela liberalização econômica que o povo da região interpreta como um saque aos bens do país.

Essas medidas de privatização levantam profundas suspeitas no Oriente Médio por causa do temor de que o bem maior do país, o petróleo, seja o próximo.

Aqui, também, a história é importante. Desde que na virada do século XX, grandes quantidades comerciais de petróleo foram descobertas no Oriente Médio, decisões sobre preço, controle e propriedade desses recursos valiosos estavam, em grande parte, nas mãos das gigantes companhias petrolíferas ocidentais. Elas decidiam preço. Elas decidiam quanto em impostos seriam pagos. Elas decidiam quem controlava os governos locais. Elas decidiam a quantidade de petróleo a ser produzida. E elas decidiam tudo o mais a respeito do petróleo, inclusive as condições de exploração, produção e trabalho.

Nos últimos 70 anos, as populações dos países onde se encontram essas reservas obtiveram poucos benefícios. Só com o surgimento da OPEP e a nacionalização das companhias de petróleo do Oriente Médio e a subida do preço do óleo na década de 70 é que a situação mudou. Infelizmente foram os oligarcas, os cleptocratas e as companhias ocidentais que se beneficiaram do aumento dos preços.

O receio de que poderiam perder seus recursos moldou grande parte do nacionalismo dos povos do Oriente Médio. E os acontecimentos do Iraque só fizeram aumentar esses temores.

Ao invadir, ocupar e impor um novo regime ao Iraque, os Estados Unidos podem estar seguindo - intencionalmente ou não - os passos das velhas potências coloniais européias e, agindo assim em uma região que, na memória viva acabou com uma prolongada luta para expulsar as ocupações coloniais. Eles combateram de 1930 a 1962 para expulsar os franceses da Argélia. De 1882 a 1956, eles lutaram para expulsar os ingleses do Egito.  Cada pessoa com mais de 45 anos no Oriente Médio sabe bem o que é isso. Soldados estrangeiros em seu solo contra sua vontade é profundamente familiar.

Publicado em In These Times, em 12/11/2004

(*) As pesquisas e ensinamentos do professor  Rashid Khalidi abrangem história do Oriente Médio moderno e em particular os países do mediterrâneo sul e leste, com ênfase no surgimento de uma identidade nacional e o envolvimento de potências externas na região. Atualmente, ele ocupa a Cadeira Edward Said de Estudos sobre o Oriente Médio, da universidade de Colúmbia, e é diretor do Instituto Oriente Médio da Universidade de Colúmbia.

 

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