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ATUALIDADES

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CRUZADA RUSSO-AMERICANA CONTRA OSAMA BIN LADEN


Por Eric Margolis

Nova York - 13/05/2000 - Estados Unidos e Rússia podem iniciar, em breve, uma ação militar conjunta contra o militante islâmico, Osama Bin Laden, e contra a liderança do Taleban, o movimento que governa  o Afeganistão de facto.

Este ataque provavelmente incluirá as forças aérea e naval americanas, que se juntariam aos comandos Alpha e Spetsnaz russos, no Tadjiquistão, estado da Ásia Central onde a Rússia tem bases militares, e 25.000 soldados. As forças combinadas seriam levadas por helicópteros ao vizinho Afeganistão para atacar a base fortificada de Bin Laden nas montanhas.

Até onde tal ataque teria sucesso ainda é uma incógnita: as forças especiais americanas são um recorde sombrio de fracassos nos últimos 25 anos do século que passou. As forças especiais russas, embora mais eficientes do que as unidades americanas semelhantes, alcançaram algum sucesso mas também fracassaram na guerra contra o Afeganistão. Repetidos assassinatos no Terceiro Mundo têm sido a especialidade dos eficientes e mortais comandos britânicos SAS (Special Air Service).

Num combate dessa natureza, e como forma de punir o Taleban, os Estados Unidos também se lançariam a ataques de mísseis e a Rússia ataques aéreos, que esmagariam violentamente as instalações governamentais e o sistema de comunicações do país.

Os Estados Unidos acusam Bin Laden pelo ataque às embaixadas americanas na África, em 1988, e pelo ataque ao destróier 'USS Cole', no Iêmen. Washington acusa o sombrio saudita, que lutou contra os soviéticos no Afeganistão, de ser o mentor intelectual do terrorismo anti-americano. Bin Laden está entre os 'Dez Mais Procurados' da lista do FBI, com um prêmio de US5$ milhões por sua cabeça.

A Rússia acusa Bin Laden e o Taleban de ajudarem a resistência chechena, cujo povo esquecido continua a lutar contra o governo colonial russo. Moscou também teme que o Taleban ameace os russos, apoiados pelos ditadores comunistas - os "Sultões Vermelhos" - da Ásia Central. A Rússia está determinada a vingar sua derrota no Afeganistão e a retomar o controle daquela imensa região, rica em recursos.

Recentemente, Washington se juntou ao "Shangai Five", um pacto não oficial entre Rússia, China e os três estados da Ásia Central, para combater o 'terrorismo islâmico' - isto é, os movimentos anticomunistas islâmicos de independência da região. Os Estados Unidos concordaram em dividir seu serviço de inteligência com eles e destinar algum recurso para a cruzada contra os muçulmanos rebeldes.

A aliança anti-islâmica da administração Clinton com a Rússia é estrategicamente errada e moralmente infame. Conhecidos grupos de direitos humanos estão condenando a Rússia por crimes de guerra e assassinato em massa na Chechênia, tortura disseminada, estupros, saques, punições coletivas e campos de concentração em funcionamento. A Rússia matou cerca de 140.000 civis chechenos e encheu os países de milhões de minas.

A América não tem que conspirar com os autores desses crimes e nem com a brutal repressão chinesa aos muçulmanos de Sinkiang, e muito menos ajudar os estados  pró-Moscou da região. Todos esses novos "amigos" de Washington na cruzada anti-islâmica, são os maiores violadores dos direitos humanos.

A América tem um caso melhor contra Bin Laden, que proclamou o jihad, ou guerra santa, para "libertar a Arábia e a Palestina do domínio americano". Ele pode estar por trás dos ataques terroristas na África; talvez, também, ao 'USS Cole'. Mas Washington não mostrou uma prova verdadeira, apenas vazamentos e informações de "especialistas anti-terrorismo" pouco confiáveis.

Antigos companheiros de guerra contra os soviéticos no Afeganistão que conheceram Bin Laden, me dizem que os Estados Unidos o elevaram além do inimaginável, a uma caricatura mítica, o último de uma longa lista de muçulmanos, que começa no século XIX. Os ataques que são imputados a Bin Laden, na verdade, podem ter sido praticados por outros extremistas sauditas da seita wahabi.

O Taleban do Afeganistão se recusa a entregar Bin Laden a Washington, um herói para muitos muçulmanos, até que os Estados Unidos mostrem uma prova de seus crimes, o que ainda não fez. Quando Bin Laden e outros mujihadin lutaram heroicamente contra os russos no Afeganistão, os Estados Unidos os saudaram como os "guerreiros da liberdade". Mas, quando esses "jihadistas" exigiram a libertação da Arábia Saudita e do Golfo, da dominação americana, eles foram execrados como "terroristas islâmicos". Em 1998, a administração Clinton despejou mísseis nos campos da guerrilha afegã e sobre uma inofensiva fábrica de remédios no Sudão, matando mais de 100 civis e guerreiros.

Os Estados Unidos arquitetaram um embargo punitivo estilo Iraque a um Afeganistão devastado pela guerra, numa hora em que muitos de seus 18 milhões de pessoas estão morrendo de fome e não têm onde morar. Embora o Taleban controle 95% do país, os Estados Unidos se recusam a reconhecer ou ajudar o regime islâmico. Washington e a mídia americana lançaram-se a uma feroz campanha contra o Taleban, acusando-o de estimular o comércio do ópio, de abrigar "terroristas" e de abusar das mulheres. A questão da mulher ecoou espalhafatosamente no ocidente, principalmente nos campi das faculdades.

Todos os grupos feministas, que agora estridentemente lamentam as mulheres que devem andar cobertas, calaram-se quando os soviéticos mataram perto de 2 milhões de afegãos - metade  mulheres - de 1979 a 1989; calaram sobre os 500.000 afegãos mutilados pelas minas soviéticas; calaram sobre as milhares de mulheres estupradas durante a anarquia pós-guerra, antes de o Taleban restabelecer a ordem interna.

O Taleban está lutando contra a oposição ao seu governo no norte do país, na fronteira com o Tadjiquistão. O chefe da aliança, Ahmad Massud, há muito é um colaborador dos russos. Seus efetivos estão cada vez mais sendo abastecidos com armas, pilotos, artilharia e apoio aéreo russos, assim como recebe apoio não declarado do Irã, da Índia e, provavelmente, dos Estados Unidos, todos eles alimentando uma guerra civil que já dura uma década.

A Administração Clinton, que vergonhosamente financiou o massacre russo de muçulmanos chechenos, agora, na verdade, está ajudando a Rússia a tornar a entrar no Afeganistão, um ato de fantástica  loucura geopolítica, que ameaçara o Paquistão e que convencerá o mundo muçulmano que os Estados Unidos é seu inimigo declarado. O dinheiro americano agora paga pela morte de palestinos no Oriente Médio, o massacre de chechenos, a morte de 500.000 crianças iraquianas (são números da ONU, não meus), e, agora, a punição de um Afeganistão devastado, tudo isto sob a bandeira de uma guerra contra o terrorismo.

Em lugar de tentar destituir o Taleban, que certamente representará o caminho de uma segunda ocupação russa do Afeganistão, os Estados Unidos e seus aliados deveriam reconhecer o Taleban como o governo legítimo do país e trabalhar com Cabul para reduzir o comércio de ópio, que atualmente está fora de controle numa nação que está morrendo de fome e  desesperada.

O ocidente pode não gostar do violento Taleban, mas ele é o governo legítimo do Afeganistão e o único poder que mantém a nação unida. O Taleban também é a única força que pode bloquear os planos russos de restabelecer seu antigo domínio na Ásia Central e retormar o poder estratégico do Afeganistão.

http://www.twf.org/News/Y2000/1204-Crusade.html

(*) Eric S.Margolis é um conhecido correspondente internacional, bem informado, que alia uma grande capacidade como jornalista de assuntos internacionais, com  experiência nas questões asiáticas, com a de comentarista.  Em seu mais recente livro, "War at the Top of the World", ele relata as barbaridades do governo da Índia na Caxemira, a cooperação entre a CIA e o serviço de inteligência da Índia em fornecer treinamento e armas para as guerrilhas do Tibet. Para Margolis, o sucesso das forças islâmicas no Afeganistão elevou as tensões na Caxemira, provocando uma volta ao nacionalismo tanto no Paquistão como na Índia.

13/05/2000



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