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ATUALIDADES

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COMO OS ESTADOS UNIDOS PODEM ATACAR ESTE TRÁGICO POVO?


Por Robert Fisk

Neste fim de semana, testemunhamos a um dos mais épicos acontecimentos deste a II Guerra Mundial, certamente desde a Guerra do Vietnã. Não falo das ruínas do WTC de Nova York ou das grotescas cenas físicas que vimos no dia 11 de setembro, uma atrocidade que eu descrevi, na semana passada, como um crime contra a humanidade. Não, estou me referindo ao extraordinário, quase inacreditável, preparativo em curso pela nação mais poderosa que jamais existiu na Terra de Deus, para bombardear o mais devastado, destroçado, esfomeado e trágico país do mundo. O Afeganistão, violentado e estripado pelo exército russo por 10 anos, abandonado por seus amigos - nós, é claro - assim que os russos fugiram, está a ponto de ser atacado pelo superpoder sobrevivente.

Assisto a estes acontecimentos com incredulidade, não só por ter testemunhado a invasão e ocupação russas. Como aqueles afegãos lutaram por nós, como eles acreditaram em nossa palavra. Como eles confiaram no presidente Carter quando ele prometeu o apoio do ocidente. Eu até encontrei um fantasma da CIA, brandindo o documento de identidade de um piloto soviético, abatido por um de nossos mísseis - que tinha sido apanhado dos destroços de seu Mig. "Pobre rapaz", disse o homem da CIA, antes de nos mostrar um filme sobre os vietcongues em sua sala de cinema particular. E, sim, lembro-me do que os oficiais soviéticos me disseram após me prenderem em Salang. Eles estavam cumprindo sua obrigação internacional no Afeganistão, disseram. Eles estavam "punindo os terroristas" que queriam destituir o governo afegão (comunista) e destruir seu povo. Parece familiar?

Em 1980, eu trabalhava para o The Times e no sul de Cabul eu soube de uma história muito inquietante. Um grupo de guerreiros religiosos mujahidin tinha atacado uma escola porque o regime comunista tinha forçado as meninas a terem aulas juntamente com os meninos. Por isso, eles bombardearam a escola, mataram a mulher do Diretor e cortaram a cabeça do marido. Era tudo verdade. Mas, quando o The Times contou a história, o Serviço de Relações Exteriores queixou-se ao escritório internacional que o meu relato, de uma certa forma, apoiava os russos. Claro. Porque os guerreiros afegãos eram bons rapazes. Porque Osama bin Laden era um bom rapaz. Charles Douglas-Home, então editor do jornal, insistia em que os guerrilheiros afegãos deviam ser chamados de "guerreiros da liberdade" nas manchetes. Não havia nada que pudéssemos fazer com as palavras.

E assim é hoje. O presidente Bush agora ameaça o obscurantista, ignorante, superconservador Taleban com a mesma punição, porque ele pretende impor um castigo a bin Laden. No início, Bush falava de "justiça e punição" para os autores das atrocidades. Mas, ele não está enviando guardas para o Oriente Méido e sim B-52. E caças F-16 e aviões AWACS e helicópteros Apache. Não estamos indo prender bin Laden. Estamos indo destruí-lo. E ótimo que ele seja culpado. Mas os B-52 não diferenciam entre homens de turbantes ou entre homens e mulheres e entre mulheres e crianças.

Na semana passada, escrevi sobre a cultura da censura que agora vai nos sufocar e dos ataques pessoais que todo jornalista que questiona as raízes desta crise enfrenta. Na semana passada, num jornal europeu, eu consegui um novo e revelador exemplo do que isto significa. Fui acusado de ser anti-americano e informado de que anti-americanismo estava ligado a anti-semitismo. É claro que vocês perceberam a questão. Não estou muito certo do que seja anti-americanismo. Mas, criticar os Estados Unidos agora é o equivalente moral do ódio ao judeu. Está certo escrever nas manchetes sobre o "o terror islâmico" ou o meu exemplo francês favorito, "os loucos de Deus", mas está definitivamente fora de questão perguntar por que os Estados Unidos são detestados por tantos muçulmanos árabes no Oriente Médio. Podemos dar aos assassinos uma identidade: podemos apontar o Oriente Médio por este crime - mas não podemos sugerir qualquer razão para o crime.

Mas, voltemos para a palavra justiça. Tornando a olhar aquela pornografia da matança em Nova York, imagino que deve haver muitas pessoas que compartilham com a minha opinião de que foi um crime contra a humanidade. Mais de 6.000 mortos; é uma matança correspondente a Srebrenica. Até os sérvios pouparam muitas mulheres e crianças quando mataram seus conterrâneos. A morte em Srebrenica merece - e está conseguindo - a justiça internacional de Haia. Portanto, certamente o que precisamos é de uma Corte Internacional de Justiça para lidar com o tipo de gente que devastou Nova York em 11 de setembro. No entanto, "crime contra a humanidade" não é o que ouvimos dos americanos. Eles preferem "atrocidade terrorista", que é ligeiramente menos poderoso. Por que? Imagino que seja porque falar de um crime terrorista contra a humanidade seria tautológico. Ou porque os Estados Unidos sejam contra a justiça internacional. Ou porque se oponham especificamente à criação de uma corte internacional em bases tais que seus próprios cidadãos não venham um dia vir a ser processados.

O problema é que a América quer a sua própria versão de justiça, um conceito enraizado, parece, no faroeste violento e na versão de Hollywood da II Guerra Mundial. O presidente Bush fala de esfumaçá-los dos velhos posters que já ornamentaram Dodge City: "Procura-se, vivo ou morto." Tony Blair agora nos diz que devemos estar ao lado da América, porque ela esteve conosco na II Guerra Mundial. Sim, é verdade que a América nos ajudou a libertar a Europa Ocidental. Mas, em ambas as guerras, os Estados Unidos escolheram intervir após um longo e - no caso da II Guerra - e lucrativo período de neutralidade.

Os mortos de Manhattan não merecem um pouco mais do que isto? A menos de 3 anos, desde que iniciamos os ataques ao Iraque por ter expulsado os inspetores da ONU, e nada foi conseguido. Mais iraquianos morreram e os inspetores nunca mais voltaram e as sanções continuaram e as crianças iraquianas continuam a morrer. Nenhuma política, nenhuma perspectiva. Ação, sem palavras.

E é onde nos encontramos hoje. Em lugar de ajudar o Afeganistão, em lugar de levarmos nossa ajuda àquele país há dez anos atrás, reconstruindo suas cidades e cultura, e criando um novo centro político que vencesse a barreira do tribalismo, nós deixamos que apodrecesse. Sarajevo será reconstruída, mas não Cabul. Algum tipo de democracia pode ser estabelecida na Bósnia, não no Afeganistão. As escolas serão reabertas em Tuzla e Travnik, não em Jaladabad. Quando o Taleban chegou, enforcando todo opositor, cortando as mãos dos ladrões, apedrejando as mulheres adúlteras, os Estados Unidos olharam esta uniformidade como uma força para a estabilidade depois de anos de anarquia.

As ameaças de Bush efetivamente forçaram a evacuação das organizações ocidentais de ajuda.Os afegãos já estão morrendo por causa de sua ausência- quero dizer, milhões - e entre 20 e 25 afegãos são levados aos ares todos os dias por causa das 10 milhões de minas que os russos deixaram. É claro que os russos nunca voltaram para retirá-las. Mas, este será o único trabalho humanitário que provavelmente veremos no futuro próximo.

Olhemos para as imagens impressionantes da semana que passou. O Paquistão fechou sua fronteira com o Afeganistão. O Irã também. Os afegãos vão ficar em sua prisão.A menos que consigam passar pelo Paquistão e se lavem nas praias da França ou nas águas da Austrália, ou escalem o Túnel do Canal ou sequestrem um avião britânico para enfrentar o ódio de nosso Secretário do Interior. De que forma eles devem ser devolvidos, retornados, ou  impedidos de entrar. É uma terrível ironia que o único homem que estamos interessados em receber do Afeganistão seja o homem que nos dizem que é o gênio do mal, que arquitetou o maior matança na história americana: bin Laden. Os outros podem ficar em casa e morrer.

The Independent, UK - Sept 23
.http://www.independent.co.uk/story.jsp?story=95487

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