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ATUALIDADES

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GUERRA CONTRA O TERRORISMO: PAÍSES DO GOLFO


Por Robert Fisk

A supostamente aliada Arábia Saudita, amiga muito próxima dos Estados Unidos, esquivou-se ontem de permitir que a América use seu espaço aéreo na "guerra contra o terrorismo" do presidente George Bush. Ela proibiu especificamente que os bombardeiros americanos levantem vôo da base aérea Principe Sultan, próximo à capital Riad. A decisão chega uma semana após o General Charles Wald, chefe de operações aéreas do Comando Central Americano, ter mudado seu quartel general, da Carolina do Sul para a base aérea.

Com uma cortesia verdadeiramente ambígua, um funcionário saudita anunciou que "a Arábia Saudita não aceitará a quebra de sua soberania nacional, mas que apóia inteiramente as ações que objetivem a erradicar o terrorismo e suas causas." Milhares de sauditas, sem falar no próprio "suspeito principal",Osama bin Laden, se perguntarão como a Arábia Saudita pretende proteger sua soberania, quando 4.500 oficiais militares americanos ainda estão estacionados no reino e quando os aviões americanos ainda usam seu espaço aéreo, inclusive a base aérea Príncipe Sultan, para ataques ao sul do Iraque. De todo modo, erradicar as "causas" das atrocidades de Nova York e Washington não são a prioridade do presidente Bush.

Informalmente, os sauditas estão dizendo que estão preocupados com os possíveis ataques a outros estados muçulmanos, aí presumivelmente incluído o Afeganistão, e que querem algum poder de decisão sobre as operações aéreas, uma idéia não muito recomendada por Bush e Powell. No entanto, as autoridades sauditas sabem que milhares de muçulmanos do reino, inclusive, conforme se diz,   conhecidos ulemás (professor religioso) e vários príncipes sauditas manifestaram um apoio discreto à exigência de bin Laden de que os americanos deixem a Arábia Saudita.

Os americanos não acharão muita graça. Mais da metade dos 19 sequestradores que se apossaram dos 4 aviões americanos, parece que tem nacionalidade saudita, mesmo aqueles que usaram identidades de outros sauditas e o próprio Osama bin Laden, um saudita, ainda que privado da cidadania. O Taleban, que Washington agora toma como responsável pelo bin Laden, foi uma criação teológica da seita sunita do "wahabismo" saudita, e até as sanções serem impostas ao Afeganistão, um vôo regular ligava Riad e a cidade de Jalalabad, no sudeste afegão.

A aliança do reino com os Estados Unidos começou há mais de meio século atrás, quando o presidente Roosevelt convidou o rei ibn Saud para vir a bordo do USS Quincy, em 1945. O rei estabeleceu sua tenda no deck do destróier americano, com 7 carneiros amarrados pelo rabo para fornecer carne fresca diariamente. Foi prometido a ele que os Estados Unidos jamais fariam qualquer coisa que pudesse se mostrar hostil aos árabes. Três dias mais tarde, Winston Churchill perdeu a incrível influência inglesa junto aos sauditas, ao declarar ao rei que "se a religião de Sua Majestade o priva de fumar e de beber álcool, devo assinalar que minhas regras de vida prescrevem um quase sagrado ritual de fumar charutos e também de beber álcool antes e, se necessário, durante as refeições e nos intervalos entre elas."

Nos dias atuais, os sauditas poderiam preferir um primeiro ministro britânico menos vigoroso a um presidente americano cuja nação tão rapidamente traiu a promessa de Roosevelt. Mas, foi o rei Fahd quem permitiu a entrada de meio milhão de soldados americanos no reino, após a invasão do Kuait por Saddam Hussein, em 1990, uma "decisão histórica", de acordo com o rei, uma traição histórica de acordo com bin Laden, e que se tornou um fardo para o príncipe Abdullah apoiar uma presença americana continuada para impedir uma futura agressão do Iraque.

Nenhuma dúvida paira sobre a vítima do presidente Saddam, o Kuait. Embora o emir, Shaykh Jaber al-Ahmed al-Sabah, só recentemente tenha sofrido um acidente cerebral, o governo do Kuait foi mais do que feliz ao convidar os americanos, os libertadores de 1991, para que enviassem mais armamentos e soldados ao emirado. Bahrain, purificado de seus sinistros agentes secretos e de seus mentores britânicos, também ofereceu suas instalações aos Estados Unidos; sua marinha ficou baseada durante anos na capital do Bahrain, Manama. Os Emirados Árabes Unidos cortaram relações diplomáticas com o Taleban no fim de semana, uma decisão que pode ser seguida pela Arábia Saudita.

No entanto, não é difícil ver a situação difícil dos sauditas e de seus vizinhos. O verdadeiro problema para os países do Golfo é a incerteza da resposta militar proposta pelos americanos aos ataques de Nova York e Washington. A "cruzada" proposta pelo presidente Bush quase provocou  um ataque do coração entre os governantes sauditas, enquanto que a idéia de uma "uma longa guerra contra o terror" soa infeliz para os emires e sultões do Golfo. Eles prefeririam sua própria estabilidade ditatorial do que a necessidade de explicar para o seu povo por que é necessário aceitar uma outra campanha de ataques contra nações muçulmanas.

Os sauditas estão realmente confusos em relação aos planos americanos. Pretendem atirar mísseis no Afeganistão, como o presidente Clinton fez depois dos ataques às embaixadas americanas na África? O Iraque estaria incluído na lista de nações que devem ser punidas pelas atrocidades do WTC? Ou o Hisbollah do Líbano, que claramente não tem qualquer conexão com o crime, mas que são avidamente apontados pelos israelenses? O FBI ficou furioso quando os sauditas não deram permissão para interrogar os homens acusados de bombardear os acampamentos militares de Al-Khobar, onde 24 soldados americanos foram mortos. Os americanos ainda estavam empenhados em conseguir o direito de falar com os três acusados, no dia em que tiveram suas cabeças cortadas.

Ontem, diplomatas sauditas e americanos estavam dançando um tango muito esquisito. Os sauditas não fizeram qualquer declaração oficial a respeito de sua recusa de ceder suas bases aos americanos, enquanto que a embaixada americana em Riad enviou todas as questões ao Pentágono,que por sua vez, disse aos jornalistas que perguntassem ao Departamento de Estado, que declinou de fazer qualquer comentário. Numa análise retrospectiva, os sauditas podem olhar para trás com alguma nostalgia para o primeiro ministro britânico, bebedor de whisky, fumante de charutos e de conversa dura, que fez uma última tentiva inútil de manter a supremacia de seu país no reino, enviando ao rei ibn Saud um velho Rolls Royce, equipado com um trono atrás do volante.

Beirute, 24/09/01

http://news.independent.co.uk/world/middle_east/story.jsp?story=95678

 



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