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ATUALIDADES

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Terremoto revela contradições e põe Istambul de volta à geografia clássica

Turquia despreza mundo árabe para mergulhar na Europa em busca da modernidade

PEPE ESCOBAR
 
ISTAMBUL - Uma das mais extraordinárias lições de história que podemos tomar em Bizâncio, Constantinopla e Istambul é caminhar pelo palácio Topkapi até o extremo do promontório conhecido como Seraglio Point e chegar às colunas de porfírio, torres cônicas e cúpulas da "Sublime Porte" - em francês, no original, este era o codinome diplomático na época em que o sultanato turco-otomano englobava o norte da África, o Oriente Médio e os Bálcãs.
 
Topkapi, construído pelo sultão Mehmet II logo após a tomada de Constantinopla, em 1453, é em essência uma versão em pedra dos acampamentos repletos de tendas de onde emergiram os nômades otomanos. O palácio não sofreu com o terremoto da última terça-feira. É tão duro na queda quanto o império otomano - que prevaleceu por 470 anos e demorou nada menos que três séculos para morrer.
 
Esse lento apodrecimento - impresso no tecido de diversos povos - pode, entre outras coisas, explicar os recentes estertores nos ex-domínios do sultão, como Bósnia e Albânia, o Vale do Nilo e a Mesopotâmia (hoje no Iraque).
A Porta Sublime - aqui no ex-QG do sultão - é o fim da Península dos Bálcãs. Do outro lado está a Ásia. Podemos cruzar de ônibus marítimo, a menos de US$ 1, mas só Seraglio Point oferece a perspectiva panorâmica.
 
Em um crepúsculo psicodélico de agosto, alguns dias depois de um violento terremoto, os ventos acariciam as águas em três direções: o Chifre Dourado, o Estreito do Bósforo e o Mar de Marmara. Nas palavras de T. S. Eliot, aqui é o "ponto imóvel do mundo que gira".
Istambul - hoje nas manchetes por motivos geológicos - deve continuar em evidência por motivos geográficos. Entre Europa e Ásia, entre a melancolia tártara do Mar Negro e o calor mediterrâneo, Istambul é a falha onde se chocam duas placas tectônicas: um verdadeiro terremoto cultural. Aqui a placa grega-eslava ortodoxa - que é européia, mas ao mesmo tempo oriental - choca-se com a placa turca, que é asiática, mas em acelerada ocidentalização.
 
Há dez anos, desde o terremoto que implodiu o império soviético, Istambul está de volta à condição de "ponto imóvel do mundo que gira" - de onde esteve expulsa durante toda a guerra fria. Sem as cortinas de ferro, externa e interna, os turcos não mais ficaram isolados dos Bálcãs a oeste e dos seus primos culturais a leste, no Cáucaso e na Ásia Central. Foi o retorno da geografia clássica.
 
Em Istambul, a Bizâncio grega foi onipresente por um milênio até ser atropelada pelos turcos nômades que irromperam da Ásia Central. Já os neonômades do século 21 são levas de camponeses do leste da Anatólia - onde começa a Ásia, a extensão imensa que os turcos chamam de "Anadolu", o berço materno. A Anatólia sempre foi a ponte que conduziu as migrações históricas entre Ásia, Europa e África. Hoje, seus neonômades conquistam a Turquia européia e constituem o grosso das vítimas do terremoto.
 
Mas essas vítimas do terremoto - esses squatters urbanos - não têm memória histórica. Também são nômades, mas não se lembram das levas anteriores de nômades - os seljuks e os otomanos. Não reconhecem fronteiras. E mesmo a idéia de nação lhes é suspeita. No Irã, depois de um boom do petróleo que aguçou os choques culturais, esse tipo de nômade produziu uma revolução islâmica. Na Turquia, o quadro é muito mais complexo.
A Turquia está vivendo um clássico do mundo em desenvolvimento - fenômeno conhecido no Brasil, China, Indonésia e Tailândia. De acordo com dados do governo turco, há duas décadas a população urbana era de 43,9%. Na virada do milênio, será de 67%. Pode parecer estranho a muitos que a consideram asiática, mas Istambul já é a maior cidade da Europa, com mais de 13 milhões de habitantes.
 
Eles vêm do berço materno, a Anatólia. E vivem em grande parte no equivalente turco da favela - os gecekondus, ou seja, casas construídas do dia para a noite, com muros de lama, tijolos soltos ou de mero papelão, tudo amarrado com corda no teto. Muitos não têm eletricidade ou água corrente. A esquizofrenia é física e social: esta é uma baixa classe média equilibrando-se entre a vida no campo e a vida urbana, viciada em TV - a cópia barata de rigor da TV americana, com uma ética nouveau riche - e cantando arabesco, o orgásmico pop turco a todo volume, presente nos ônibus que atravessam a Anatólia.
 
Os gecekondus são a terra prometida da esquerda turca. Mas a insatisfação popular não é política: é religiosa. E, portanto, cultural. A impressionante solidariedade popular nesses dias após o terremoto revela como esses neonômades migrantes reinventam idéias comunitárias e de auto-ajuda - ignorando totalmente o Estado secularista. A plataforma do Partido do Bem-Estar, islâmico, é emblemática: a Turquia deve acabar com sua obsessão em ocidentalizar-se. O establishment político não dá atenção ao eleitor do gecekondu, assim como não puniu os especuladores imobiliários que construíram os prédios de papelão reduzidos a cinzas pelo terremoto. Não por acaso o refúgio desse eleitor é o Islã.
 
É uma soberba ironia histórica que a palavra turco tenha sido cunhada pelos seus inimigos mortais, os chineses, no século 6: tu-kiu designava um grupo de nômades que fundaram um império que ia da Mongólia até o Mar Negro. É importante lembrar que a Muralha da China - iniciada no século 3 - foi construída justamente para conter esses nômades tribais. Não conteve. Houve levas e levas de migrações turcas pelas estepes da Ásia Central, incluindo os uigures - hoje subjugados pelos chineses no Xinjiang - e os khazars. Essas hordas turcas sucumbiram ao Islã apenas como uma religião, mas não como um sistema social. Seu paganismo é latente. Essa é a razão pela qual Kemal Ataturk foi capaz de secularizar a Turquia nas décadas de 20 e 30 deste século.
 
Não apenas os chineses, mas os russos - outro inimigo mortal - há séculos sentem-se ameaçados pelos turcos. Foram os russos que inventaram o nome tártaro, que englobava todo mundo, das hordas de Gengis Khan a seus primos, as tribos turcas. Os russos até hoje não perdoam que a Horda de Ouro mongol os tenha subjugado nos séculos 13 e 14: por isso a Rússia perdeu o Renascimento. Além disso, foram os tártaros que orientalizaram a Rússia. Desde Ivã, o Terrível, no século 16, a Rússia vive com essa sede de vingança - de querer acabar com os turcos. O melhor exemplo é o ódio de Stalin, que dividiu toda a Ásia Central a seu bel-prazer (ou ódio) e impôs o alfabeto cirílico às populações turcas.
 
Stalin tentou eslavizá-los a qualquer preço. Não conseguiu, mas conseguiu cortar a comunicação com seus primos culturais no Afeganistão, no norte do Irã e na Turquia. A Guerra da Chechênia, de 1994 a 1996, e hoje a guerra no Daguestão são seqüelas desse inaudito ódio russo a muçulmanos turcos.
O leste da Anatólia só viu seus primeiros nômades turcos no século 11 - os seljuks. A ofensiva foi lenta, gradual e segura. Os gregos bizantinos só conseguiram segurar-se em Constantinopla até 1453, quando mais uma tribo turca, os otomanos - que já haviam absorvido os seljuks -, a conquistou e rebatizou Istambul, estabelecendo a curto prazo um fabuloso império poliglota das portas de Viena ao Iêmen, e da fronteira do Marrocos à Mesopotâmia.
 
Mas no imaginário do Ocidente, o que ficou impresso de toda essa turbulência foi mais uma esquizofrenia cultural - entre temor e sedução. Temor do avanço turco e sedução pelo romance da corte otomana. O Topkapi até hoje deslumbra milhões de visitantes como emblema de uma cultura com minaretes erguidos como pernas em salto alto de dançarinas de cancã e uma orgia de sedas bordadas, tapetes em arabescos, travessas de doces e um harém que chegou a conter mil escravas-concubinas concorrendo ao troféu de favorita do sultão. Nenhum Islã foi tão sensual quanto este.
 
O Topkapi era uma corte nomádica. Suas torres parecem as tendas que ainda hoje podem ser encontradas no deserto de Kara Kum, na Ásia Central. Mas no início do século 20, o Topkapi nomádico e sensual já havia degenerado para uma teocracia: um remix histórico da grega Bizâncio antes da queda de Constantinopla. Das ruínas desse império otomano multinacional surgiu a Turquia moderna, também multinacional, via Kemal Ataturk.
Ataturk conseguiu nada menos do que mudar o sistema de valores turco. Para Ataturk, a Europa havia derrotado o sultanato porque tinha uma civilização mais sofisticada. Portanto, a saída era ocidentalizar a Turquia. Não por caso Ataturk é provavelmente o muçulmano mais popular e respeitado entre as elites do Ocidente.
O trauma foi cataclísmico. As cortes islâmicas foram abolidas - assim com o fez para os homens e a obrigação de véu para as mulheres. Embora ainda hoje se escute a ubíqua reclamação de que, para os ocidentais, os turcos ainda andam de camelo e com um fez na cabeça.
 
A capital foi transferida de Istambul - símbolo do império islâmico retrógrado - para Ancara, no coração da Anatólia pagã. A escrita arábica foi substituída pela escrita latina. E a língua turca passou a ser o paradigma da nacionalidade: quem falava turco, era turco. Surgiu, assim, um Estado moderno verdadeiramente multinacional, com muçulmanos dos Bálcãs, do Cáucaso, da Ásia Central e mesmo com judeus fluentes em turco. A Turquia desprezou o mundo árabe e mergulhou na Europa. Este mito de construção nacional totalmente secularizado é de uma importância histórica fora do comum: não existe nada remotamente parecido em outras sociedades do universo muçulmano, onde todos os mitos são religiosos.
 
Nesse sentido, o grande terremoto turco do fim do milênio é uma metáfora. Está servindo, e vai servir, para colocar a nu todas essas contradições acumuladas: nomadismo e sedentarização, campo e cidade, Islã e secularismo, Ásia e Europa (permanece a insistência dos europeus, com seus traumas históricos mal digeridos, em impedir a entrada da Turquia na União Européia). É como se o terremoto fosse o símbolo do retorno do reprimido. Uma condição absolutamente adequada ao "ponto imóvel do mundo que gira".

    Folha de São Paulo - 22 de agosto de 1999



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