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ATUALIDADES

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O ISLAM E AS AMBIGUIDADES DA MODERNIDADE

Por  Farish A. Noor.

Para aqueles  que leram os trabalhos de Francis Fukuyama, devem estar familiarizados  agora com a sua tese de que o fim da história chegou e que o mundo vive sob a bandeira triunfante da Modernidade e do Positivismo. Realmente, há sinais que indicam que Fukuyama esteja certo em suas observações. Vemos por todo mundo, a forma  como  o juggernaut da Modernidade pisou fundo nos sagrados cânones das tradições, costumes e religião. Traços da Modernidade estão sendo vistos em todos os  lugares. Nossa visão do mundo em que habitamos, nossa compreensão da sociedade  humana e da topografia social, nossa relação com o ambiente - tudo carrega em si os vestígios do projeto moderno. O positivismo, o materialismo e o determinismo parecem ser os vetores com os quais mapeamos nosso caminho no mundo em que vivemos hoje. Nosso desejo de controlar, policiar, penetrar e domesticar o mundo que nos rodeia é a prova de que todos somos filhos da era moderna.

Mas a ascendência do paradigma moderno também nos levou a uma reflexão e auto-exame sérios em muitas outras partes do mundo. Culturas tradicionais e comunidades religiosas estão se perguntando: É verdade que a religião morreu? A religião pode harmonizar-se com a ordem do conhecimento da modernidade? Ou a religião exalou seu último suspiro?

Estas quesões estão circulando pelo mundo muçulmano em particular nos dois últimos séculos. Da ascensão dos renascentistas wahabbi até ao surgimento dos modernistas e reformistas de al-Azhar e Aligarh, legisladores e intelectuais muçulmanos estão se fazendo a pergunta dolorosa: O Islam é moderno? O Islam pode adaptar-se à Modernidade ou a luz do positivismo e da racionalidade instrumental afinal apagarão a luz interior - an nur - da fé? Há séculos que tais questões vêm sendo levantadas por homens como Jamluddin al-Afghani, Muhammad Abduh, Rashid Rida, Syed Ahmad Khan, Ameer Ali, Ali Shariati e Syed Sheikh al-hadi. Recentemente as mesmas questões tornaram-se pontos chaves numa série de fóruns, organizados pelo Conselho Representativo dos Estudantes da Universidade Islâmica Internacional, aqui em Gombak.

Podemos ser pressionados a responder a essa questão. Até para considerar se o Islam é moderno torna-se quase que uma imensa tarefa. As palavras "Islam" e "Modernidade" são tais que só podem ser expressas em letras maiúsculas.

Num certo sentido, pode-se dizer que o Islam é apenas um grande conceito para ser reduzido a uma tal classificação. O Islam é um fenômeno bastante complexo para ser posto de quarentena dentro do rótulo de "moderno". Na verdade, pode-se até ir mais longe e afirmar-se que o Islam possui não só os elementos mas as características da Modernidade, daí ter elementos que são caracterizadamente pré-modernos e pós-modernos também. As noções pós-modernas de um mundo sem fronteiras, identidades fragmentadas, imaginários sobrepostos e espaços discursivos contestadores não são novas no Islam - estes foram aspectos da civilização muçulmana por todo o tempo, muito antes de se transformarem em tendências de intelectuais ocidentais como Foucault e Derrida. Da mesma forma, também pode-se alegar que o Islam é repleto de elementos que são decididamente pré-modernos, como as estruturas políticas e os modos de governabilidade neo-feudais, que continuam a existir em muitas sociedades muçulmanas.

Portanto, reduzir o Islam a um significado simples e estático que pode ou não ser comparado à Modernidade, é perder de vista o significado de ambos.  Mas, o que pode ser dito, no entanto,  é que a sociedade muçulmana  é  o componente central da questão maior a que damos o nome de "Islam". A relação da sociedade muçulmana com a Modernidade é muito fácil de ser entendida e explicada por nós. Assim, se tivéssemos que refazer a questão "Os muçulmanos são modernos?" poderíamos ter um tipo completamente diferente  de resposta.

No passado, escritores como Ernest Gellner afirmaram que os muçulmanos têm um problema em lidar com a modernidade. Como muitos outros intelectuais, o maior problema de Gellner era tentar explicar como e por que as sociedades muçulmanas permanecem tão complexas como são hoje em dia., e por que os muçulmanos parecem ter uma relação "inconsistente" com a modernidade. Ler a obra de Gellner sobre a sociedade muçulmana e a modernidade dá a impressão de que ele achava que os muçulmanos sequer podiam lidar com as coisas simples, como os sinais de trânsito ou os caixas-automáticos! Provavelmente Gellner acreditava que os muçulmanos - com toda sua bagagem teológica e cultural a reboque - não aprenderiam a se adaptar à vida no mundo muçulmano.

Colocando de lado os equívocos de Gellner, ainda precisamos olhar para as razões subjacentes do por quê esses mal entendidos surgem. Um estudo rápido das condições do mundo muçulmano nos mostra como e por que esses erros acontecem. Porque é inegável que na maior parte do mundo muçulmano de hoje os próprios muçulmanos têm um problema em tentar decidir sobre quem eles são e o que querem. Os líderes muçulmanos condenam os vícios da modernidade mas ficam bastante felizes quando importam os modernos métodos de coerção e controle social para seus estados. Grupos muçulmanos tradicionalistas conservadores do tipo Taleban alegam que a modernidade é essencialmente anti-islâmica e haram, mas ficam bem contentes quando importam armas, foguetes, minas e outros "brinquedos" modernos em troca de haxixe.Os próprios muçulmanos imprecam contra tudo que eles entendem como secular e moderno, mas enchem suas cidades de fast-food, cinemas, complexos de lojas e outras coisas importadas in toto do ocidente, mais precisamente da Califórnia.

Olhando a forma como a modernidade secular (ocidente) foi aceita pelos muçulmanos em geral, é incrivelmente surpreendente que a relação do mundo muçulmano com o projeto moderno permaneça tão ambíguo. Pegamos os piores elementos e derivados da idade moderna e os tornamos nossos, e, em seguida, condenamos a Modernidade e a modernização como males necessários que precisamos possuir, ainda que mantendo-os à distância.

No entanto, o que algumas sociedades muçulmanas têm feito é aceitar os aspectos positivos da Modernidade e o do processo de modernização. A Modernidade, deve ser lembrado, surgiu das ruínas do passado medieval, que se caracterizou por um respeito cego às tradições e normas que eram antiquadas e socialmente regressivas. O surgimento da Modernidade oriunda do renascimento europeu foi um passo importante para a emancipação da humanidade e permitiu que os seres humanos reconhecessem seu verdadeiro potencial como agentes racionais com livre-arbítrio e responsabilidade. Na verdade, não demorou muito e o projeto da Modernidade foi atropelado graças a outros interesses em jogo. Não podemos e não devemos nos esquecer das enormes contradições que finalmente levaram ao abuso da Modernidade em si - que inclui a ascensão de impérios no ocidente e a era da colonização e do imperialismo.

Apesar de tudo, as premissas fundamentais de toda a era Moderna - a idéia de que os seres humanos são seres racionais que podem fazer escolhas individuais, ter direitos e responsabilidades individuais - estas permanecem tão relevantes e importantes para nós hoje como foram no passado. Esses valores também são universais e devem ser aplicados a cada um - muçulmanos e não muçulmanos.

Voltando à questão se os muçulmanos de hoje são modernos, poderíamos responder que "sim", mas não sem antes qualificar que a maior parte de nós aprendeu apenas as piores lições da Modernidade. Ainda resta aprender o outro lado do projeto Moderno, aquele que é baseado no humanismo universal, no ceticismo saudável e na ação individual.

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