Transcrição do primeiro discurso público de Denis Halliday, após sua renúncida ao cargo de Assistente do Secretário Geral da ONU, e Chefe da Coordenação de Ajuda Humanitária da ONU para o Iraque, em protesto contra as  sanções. Ele foi proferido em novembro de 1998, na Universidade de Havard, Massachusetts.

PORQUE RENUNCIEI AO MEU POSTO, EM PROTESTO CONTRA AS SANÇÕES

Por Denis Halliday


"Não encontro qualquer justificativa legítima para defender as sanções econômicas sob tais circunstâncias. Em minha opinião, é desrespeitar os elevados princípios da Carta das Nações Unidas, da Convenção dos Direitos Humanos, e a liderança moral e  credibilidade da própria ONU.


Sinto-me honrado em estar aqui, nesta grande universidade e satisfeito por ter sido convidado a partilhar meus pensamentos sobre o impacto das sanções impostas, pela ONU, ao Iraque e ao povo iraquiano. Sinto-me muito feliz em compartilhar essas idéias, baseadas em minha experiência pessoal no Iraque, sob o impacto das sanções, por mais de 13 meses, de setembro de 1997 até outubro de 1998.

Meu objetivo aqui, é informar as pessoas sobre o impacto terrível que as sanções impõem em todos os aspectos da vida iraquiana, na esperança de que alguns dos presentes, nesta noite, possam falar depois sobre isso em qualquer lugar em que tenham oportunidade de fazê-lo. Presumo que vocês, como eu, considerem adequado que a ONU tenha o poder e a capacidade de tentar conter, dentro de uma certa linha de liderança, certos governos que estão agindo fora dos limites do comportamento aceitável pelos outros estados membros. E, reconheço, é muito difícil definir exatamente o que é comportamento aceitável. Acredito que os estados membros deviam, ou deveriam tentar, influenciar o comportamento dos estados extraviados, mas também reconheço a dificuldade de se determinar o que seja comportamento aceitável. Não pode ser um modelo ocidental, precisa ser sensível às diferenças norte-sul, e sensível à cultura, às normas culturais, influência religiosa, passado colonial, história, mas, no entanto, deve ser feito sem abrir mão de algumas verdades globais básicas, conforme estabelecidas na carta da ONU, que compreende violações dos direitos humanos, catástrofes humanitárias, declarações de guerra. Isto inclui lidar com a importante questão do respeito à soberania nacional, quando o sofrimento humano exige uma resposta externa, isto é, de fora do país, tal como a assistência humanitária em casos de desastres naturais. Mas eu entendo o embargo atual como representando a falência dessas idéias, uma vez que não obteve os resultados desejados. E vejo o embargo da ONU provocando consequências inaceitáveis para crianças inocentes e o povo de um país, indivíduos que certamente não têm nada a ver com a invasão do Kuait. Não há justificativa, na minha opinião, para a morte e a subnutrição provocadas pelas sanções.

De que forma as sanções são responsáveis?

Nega o acesso aos fundos provenientes da venda de petróleo, necessários para investir na ingestão de uma alimentação adequada, uma dieta balanceada, assistência médica, principalmente na prevenção de doenças, provisão de energia elétrica, e na disponibilidade de água potável, cuja falta mata crianças em grande quantidade. Sob tais circunstâncias, nada justifica a manutenção das sanções sobre o Iraque, pelas nações membros do Conselho de Segurança da ONU, e sublinho  Conselho de Segurança, com seu  poder de veto controlado por 5  membros, em oposição à Assembléia Geral, com a totalidade da representação dos estados membros e com igual peso de voto. Isto fica evidente quando os estados membros interessados sabem das consequências aterradoras sobre a população iraquiana que suas decisões acarretam, para continuar sustentando o embargo econômico. E este "nada justifica" inclui comportamento, atitude, ações, não-cumprimento, declarações, planos, etc., do sistema de governo em vigor, da liderança no poder. Podemos não gostar do governo, mas esta antipatia não pode permitir o fortalecimento dos membros do Conselho de Segurança para levar adiante um sistema de sanções que mata, destrói e arruína a vida de alguns dos mais de 23 milhões de iraquianos.

Modificar as sanções?

Sim, claro que existem riscos se o embargo for suspenso agora. Nunca vamos estar absolutamente certos de quais serão os resultados se a ONU liberar as receitas provenientes do petróleo iraquiano no mês que vem, mas, provavelmente, o risco é verdadeiro daqui a 5 anos ou 10 anos. Jamais estaremos certos, o que é fato é que não podemos esperar, o povo iraquiano não pode esperar. A história mostra que nunca estamos certos de como a soberania dos estados se comporta. A história é cheia de desapontamentos e surpresas espantosas, mas sabemos, com certeza, que as sanções destruirão o povo do Iraque se não se encontrar um ponto comum , se não assumirmos determinados riscos, se não separarmos as sanções econômicas do monitoramento do desarmamento e do controle das vendas internacionais de armas.

A questão é: O que é melhor? O que é mais aceitável? Trabalhar com o Iraque e buscar um caminho melhor com seu povo e seu governo, como uma parte integrante da comunidade mundial? Ou manter o Iraque fora do concerto das nações, sem uma influência externa positiva, e sustentar os prejuízos que vêm sendo impostos, em nome dos Estados Unidos e de outros países do Conselho de Segurança da ONU, na verdade, em nome de toda a família de nações da ONU? Antes de prosseguir, examinarei rapidamente  a espécie de prejuízos a que me refiro.

Aqueles que na comunidade internacional se preocupam com as crianças e o povo iraquianos, como disse, mais de 23 milhões, têm-se concentrado, de forma correta, nos resultados de oito anos de sanções econômicas sobre os elevados índices de subnutrição e mortalidade infantil. Considerando que a maioria dos estados membros sem dúvida não pretendem isso, a população civil, em especial os recém-nascidos e crianças, são o alvo, estão sendo atingidas pelas sanções impostas pela ONU, com terríveis consequências. Os dados sobre a mortalidade de recém-nascidos mostra isto. A Organização Mundial de Saúde, que não está em posição de confirmar dados específicos, reconhece que a taxa de mortalidade mensal de crianças abaixo dos 5 anos, como consequência das sanções, alcança de 6000 a 7000 por mês, e considera que este número está subestimado, na medida em que os nascimentos nas áreas rurais do Iraque muitas vezes não são registrados, ou não são registrados imediatamente, e as mortes acabam ocorrendo sem o registro. Há muitas razões para esta situação trágica de morte desnecessária, inclusive a saúde precária das mães, a falência dos serviços públicos de saúde, a desnutrição pela falta de acesso a uma dieta alimentar balanceada, apesar do programa Petróleo por Alimento, e a elevada incidência de doenças produzidas pela água, devido ao colapso do sistema de águas e esgoto, mais a energia elétrica para acionar esses sistemas, que foram destruídos durante a Guerra do Golfo. A saúde das mães ficou comprometida por anos de uma dieta inadequada e privações, que consumiram suas imunidades naturais, comprometendo o aleitamento materno,  que não pode contar com o suplemento alimentar para o bebê, por causa da água que não é potável. A revisão dos alimentos básicos antes e agora, sob a 986, e o programa Petróleo por Alimento, não foram suficientemente balanceados e enriquecidos para promover mudanças importantes.

Dentro das receitas limitadas permitidas pelo Conselho de Segurança para importações, os fundos não são suficientes para a inclusão, na cesta básica mensal, de proteínas animais, carne, peixe, galinha e minerais e vitaminas essenciais numa dieta balanceada para o bem estar de adultos e de vital importância para as crianças. A cesta básica da 986 se concentrou na ingesta calórica, via grãos, açúcar, chà e outros suplementos básicos, que, associados ao colapso acima mencionado, diminuiu a expectativa de vida dos recém-nascidos e crianças iraquianos. Os níveis de subnutrição em crianças abaixo dos 5 anos permaneceram em 30%, aproximadamente, apesar de medidas do governo e da 986. Dados da UNICEF para a região norte do país, isto é, onde vivem os curdos, mostram a redução para 25%, porém ainda um número inaceitavelmente elevado. Mas, até agora, as melhorias promovidas no centro e no sul do país ainda precisam ficar evidentes. Além de tudo, a desnutrição crônica está em torno de 20%, o que, como sabemos, leva a atrofias, tanto em termos de crescimento físico como em termos de capacidade mental. No longo prazo, o impacto de tal dano é assustador.

Agora, gostaria de falar sobre algumas das consequências sociais das sanções. Ao fazer isto, não quero de maneira alguma desviar a atenção da tragédia da desnutrição e mortalidade que citei acima, mas é importante rever outras formas de danos impostos sobre o povo iraquiano, que certamente não teve responsabilidade nos acontecimentos que levaram à invasão do Kuait, e da introdução e continuidade sustentada das sanções do Conselho de Segurança.

Nem sempre relatadas pelo governo ou pela mídia, são as consequências para a estrutura social e a família do povo iraquiano. A manutenção das sanções está esgarçando o tecido social e comprometendo o comportamento da família. O país sofreu uma importante desagregação da tradicional família iraquiana e que se estendeu para o sistema familiar como um todo. Atualmente, por causa das sanções impostas, é comum as famílias de órfãos, mães que lutam sozinhas pelo sustento, e houve um aumento dos índices de divórcios, provocando tensões econômicas. Como consequência, vendas de casas, móveis e outros bens, por exemplo, livros, e desabrigados, além de locais de prostituição.

A desvalorização do dinar corroeu a poupança e as receitas de profissionais, assim como dos salários também. Em 1990, 1 dinar valia aproximadamente US$ 3,00, e hoje, são necessários 1.500 dinares para comprar US$ 1,00. Podemos imaginar o que isso representou para o poder de compra do povo iraquiano, e qual o impacto sobre suas famílias. O problema foi sentido, principalmente, em Bagdá, onde a população estava acostumada a comprar produtos alimentícios importados e outros bens de consumo. Ao mesmo tempo, surgiu a inflação, aumentando, mais ainda, as dificuldades enfrentadas por todos, principalmente daqueles que viviam de salários fixos, como os servidores civis e os profissionais do ensino. Os altos custos dos produtos básicos necessários, como frutas frescas, carne e vegetais, estão acima de sua capacidade de compra. A aquisição de itens importados e outros luxos estão simplesmente fora de questão.

Sob tais circunstâncias, são comuns a desesperança e a depressão, apesar da coragem, paciência e tolerância do povo iraquiano. O impacto social de 8 anos de sanções é variado e muitas vezes devastador para a qualidade de vida, para os padrões do comportamento tradicional. Representou o colapso dos valores da família islâmica. As sanções solaparam duramente as expectativas do povo iraquiano de futuro, do futuro de suas crianças e do próprio futuro do país, que já foi próspero e orgulhoso. Agora, muitos vivem com dificuldade, mas, para a maioria dos iraquianos, o pior de tudo é viver na humilhação.

Um dos aspectos dessa humilhação é o surgimento de mendigos, presença constante nas ruas de Bagdá e de outras cidades, o que é terrível para o sentimento de orgulho e dignidade deles. Uma outra coisa é o crescimento da corrupção, que, em tempos melhores, era desconhecida no Iraque. Este problema preocupa o governo e alguns sociólogos iraquianos em termos de futuro. Como os povo retomará os elevados padrões morais que possuíam antes da desorganização devida ao impacto das sanções?

Talvez, os mais visivelmente afetados pelas sanções, sejam as crianças, que foram forçadas a se transformar em ganha-pão de suas famílias, tendo que largar a escola. A evasão escolar alcança algo em torno de 20% a 30%, em um país onde os padrões educacionais até o terceiro grau sempre foram tidos como de alta qualidade. Agora, espera-se que as crianças trabalhem por seus pais e que contribuam para o bem-estar da família. Um outro aspecto disto, é que foram forçadas a entrar para o crime de rua, coisa até então desconhecida em Bagdá ou em outras cidades. Os prejuízos, no longo prazo, serão evidentes nos anos vindouros, porque as crianças de rua e as crianças das áreas rurais crescerão com baixas expectativas de vida e sem os benefícios da educação básica. Os índices de analfabetismo não confirmados e outras deficiências educacionais crescerão, com efeitos negativos sobre a população e a produtividade futura do país. Essas mudanças em relação às crianças dentro da família, vêm ameaçando a ordem social por todo o Iraque e enfraquecendo a importância normalmente aceita do bem-estar das crianças dentro da família, comprometendo o sistema familiar.

Vivendo sob o colapso econômico de todo o Iraque, jovens adultos treinados e graduados acham extremamente difícil encontrar emprego. Milhares de jovens estão ociosos,quando poderiam estar trabalhando. O desemprego, em especial entre os homens, tornou-se um problema crítico. Jovens mulheres têm muito menos opções do que já tiveram em muitos anos. Os níveis de frustração, impaciência, raiva e tédio são evidentes, porque são o retrato do sentimento de desespero em relação à situação atual e ao futuro em geral. As dificuldades econômicas limitam as relações sociais, a incapacidade de casamento e comprometem os casamentos existentes. Na medida em que o custo de vida aumentou demais, milhares de profissionais se encontram em atividades menores, mas que pagam melhor do que as atividades ligadas à educação, ou ao seviço público, ou ao esforço intelectual. Trabalhadores civis e professores universitários assumem outros empregos, como dirigir táxis, por exemplo. Médicos e engenheiros altamente qualificados, acabam como vigias das instalações das ONU, em Bagdá.

Gostaria de falar sobre o problema da evasão de cérebros. Este fenômeno teve muitas consequências, uma das quais pode ser a perda significativa e permanente de profissionais para o exterior. Os números não são inteiramente conhecidos, dado que muitos se exilaram ilegalmente, mas estima-se que cerca de 2 milhões de profissionais iraquianos estejam trabalhando fora do país. Estes homens e mulheres eram a força motriz do esforço intelectual, do crescimento tecnológico e das mudanças, e de um sistema educacional que foi considerado de excelente qualidade durante muitos anos. Eles também eram os profissionais de salários mais altos numa classe média atualmente decadente. As implicações negativas serão sentidas mais vivamente no longo prazo, quando, em decorrência desta situação, a incapacidade ou a habilidade iraquiana para competir nos mercados regionais e mundial, e na pesquisa científica e no avanço tecnológico, serão duramente sentidas. A fuga de muitos especialistas do país impede que o Iraque recupere sua capacidade econômica e tecnológica, e também tem consequências importantes sobre as famílias.

Um outro aspecto negativo do impacto das sanções, porém menos conhecido, foi a redução drástica da importância do papel que a mulher estava começando a usufruir no país. A entrada da mulher no mercado de trabalho foi significativamente estimulado durante a guerra Irã - Iraque, quando os serviços profissionais, inclusive as funções do serviço público, policiais e motoristas de ônibus, transformaram-se em novas oportunidades para as mulheres treinadas. Devido ao colapso econômico ocasionado pelas sanções, muitas mulheres foram obrigadas a abandonar seus empregos de baixos salários, a fim de trabalharem em casa em atividades menores, mas de remuneração melhor. A capacidade delas de continuar a exercer as funções do serviço público foi minada por um salário mensal igual, talvez, a 1/10 do preço de um par de sapatos. Em outras palavras, tornou-se muito caro sair para trabalhar. Algumas continuaram no serviço público só porque suas famílias foram capazes de subsidiar o transporte e os gastos decorrentes. Outras continuaram no serviço, apesar de tudo, para ficar mais perto da relativa sofisticação das funções do serviço público e pela possibilidade de acesso a informações e material de leitura. As que ficaram em casa, como a maior parte das iraquianas atualmente, fecharam-se para a informação sobre o mundo além de suas fronteiras. Outras profissionais foram obrigadas a trabalhar em lojas, como parte do esforço familiar para colocar comida na mesa. Elas foram obrigadas a abandonar as esperanças de um casamento e de construir suas próprias famílias, obrigadas que são a sustentar os parentes. Assim, muitos avanços que a mulher iraquiana teve em décadas recentes retrocederam e as oportunidades, em muitos casos individuais, foram perdidas para sempre.

Apesar da considerável cobertura dos danos provocados pelos mísseis e bombas da Guerra do Golfo, muitas pessoas fora do Iraque desconhecem a densidade e extensão dos danos ao meio ambiente e à infraestrutura civil e urbana. As sanções impediram a reconstrução e reabilitação dos prejuízos de guerra e hoje o povo do Iraque continua a sofrer grandemente a falta de energia elétrica adequada, atualmente funcionando menos de 40% do que funcionava em 1990. O sistema de comunicações nacional e internacional está arruinado e não funciona adequadamente, houve perda de serviços postais, colapso dos bancos, dos transportes aéreo e ferroviário, e a destruição da infraestrutura privada e pública, o que contribuiu para o desemprego em massa e perda do poder de compra. Casas foram destruídas; usinas elétricas, aeroportos domésticos, ônibus e outros veículos, estoque de alimentos, laboratórios de testes, silos, usinas de purificação da água, destruídos pelos ataques de mísseis e bombas; também foram destruídos serviços médicos, escolas, prédios públicos e lojas. Hospitais e clínicas rurais foram bastante danificados. Em suma, a guerra danificou toda a infraestrutura civil necessária para sustentar a vida e a sociedade. A reconstrução continua, mas é bastante dificultada pela falta de recursos, de suprimentos, equipamentos e peças, proibidos pelo regime de sanções. O Iraque é típico de uma economia rica em petróleo, muito dependente das importações de toda a espécie, e sob tais circunstâncias, é claro, que não funciona.

As sanções também serviram para isolar do resto do mundo, como um todo, os intelectuais, os profissionais e outros no Iraque.A grande maioria do povo hoje, não tem acesso à televisão internacional e nem a material de leitura estrangeiro. Isto é problemático em termos de apartar o povo iraquiano dos aspectos positivos do pensamento ocidental, que tem uma visão positiva em relação ao Iraque e à condição de seu povo. Igualmente infeliz é a falta de acesso pelas categorias profissionais, inclusive a de médico, às modernas técnicas e a outros materiais de consulta relacionados e necessários para o desempenho da profissão. Perderam a aproximação pessoal e profissional com os profissionais do resto do mundo. Jovens crescem sem o benefícios do intercâmbio com outros países.

Um dos resultados deste isolamento é a alienação. É o crescimento de uma geração mais jovem de homens e mulheres que não viajou para outros países, não podem estudar fora e nem se comunicar com o mundo exterior. Eles amadurecem sem os benefícios de estar conscientes do pensamento positivo a respeito do Iraque e do mundo árabe. O material da mídia tende a ver aspectos negativos por parte do ocidente e de outros estados em relação ao Iraque e a seu povo. Sem os benefícios e a sofisticação do intercâmbio internacional, a próxima geração pode tornar-se perigosamente introvertida e na defensiva, como em vários outros países da região onde o Iraque está situado. Este fenômeno, juntamente com outros aspectos daninhos das sanções, dificilmente serão corrigidos ou modificados de forma positiva. As consequências para as relações entre o Iraque e seus países vizinhos e o resto do mundo podem ser, na realidade, perigosas.

Vamos olhar para a orientação política futura. Um perigo possível é que o ambiente psicológico pouco saudável que as sanções estão sustentando vão acabar permeando as esferas de decisões políticas. Isto levanta a questão de como os efeitos das sanções a longo prazo influenciarão o futuro e quais as implicações que terão sobre as relações do Iraque com o resto do mundo.

Entendo que o impacto desta alienação já está sendo sentido pelo Partido Baath, onde seus membros percebem que os  mais jovens, que virão depois deles, estão frustrados e irritados com a posição "moderada" sendo tomada pela liderança do partido. Aparentemente, eles entendem que o compromisso e a vontade continuada de trabalhar com a ONU, apesar dos 8 anos de sanções, são incompreensíveis e inaceitáveis. Não está muito claro até onde esta impaciência poderá ser mantida sob controle pelos oficiais mais velhos, na medida em que estes tiveram acesso a uma educação mais sofisticada, com nível de pós-graduação, e certamente viajaram pelo exterior. Talvez a recente decisão vis-a-vis com a UNSCOM reflita esta pressão nos domínios da política interna do Iraque. A impressão de que o Presidente do Iraque trabalha sozinho e governa o país como um "one man show" penso que é incorreta. Existe uma realidade na política interna, a qual, mesmo o presidente e seus parceiros mais próximos, levam em consideração.

Com a geração mais jovem de iraquianos percebendo uma situação que eles avaliam ser impossível e discriminadora, podemos visualizar a formação de um movimento radical para reverter as condições impostas pelas sanções, que utilizará o desespero e o descontentamento existentes entre os jovens como um elemento de apoio. A imposição, por intermédio das sanções, das duras condições de vida  sobre a população, em um país que ainda se recupera dos efeitos de duas guerras, pode desempenhar um papel importante na formação das características políticas futuras do Iraque. Portanto, é de se temer as consequências que o regime das sanções pode ter sobre o futuro do Iraque, sobre aquela região e sobre o mundo. Como resultado do isolamento, o perigo do fanatismo, dos ressentimentos profundamente enraizados e as chances que tais fatores têm de influenciar o futuro processo decisório deste país, são bastante reais, o que não seria novidade, principalmente dentro do mundo árabe. As consequências talvez não sejam facilmente controladas dentro do país, e podem ter um impacto negativo no exterior. Numa análise final, é impossível especular exatamente sobre o futuro que está reservado, mas, também é  igualmente impossível desconhecer a alienação e suas consequências políticas transformando uma realidade.

Entre alguns estados membros, parece existir a percepção de que as sanções e sua continuação vão determinar mudanças políticas positivas, isto é, levar o Iraque para um tipo de democracia participativa de estilo ocidental. O que estes estados não percebem é que aqueles iraquianos ainda preocupados com o governo estão fora do país, ou inteiramente ocupados com a sobrevivência da família, inclusive com oportunidades de emprego, condições de saúde de suas crianças, necessidade de alimento em casa, e principalmente tendo que suprir as necessidades básicas dos parentes. O problema é que, por causa da guerra Irã-Iraque, a demanda por assalariados e chefes de famílias foi exacerbada por causa do surgimento extraordinário de viúvas de guerra e famílias órfãs. Parece que só com a recuperação social e econômica do Iraque os indivíduos terão tempo, e talvez inclinação, para começar a se concentrar em uma forma de governo que possa ser mais participativa, menos invasiva e menos concentradora de poderes. Do contrário, é o que vemos, uma condição de total dependência da população em relação aos serviços prestados pelo governo. Até o momento, calcula-se que famílias necessitadas, que são protegidas pela lei de assistência social, cresceu a uma taxa de 40%, desde 1995, o que só confirma que a dependência do povo iraquiano em relação ao seu governo ficou maior depois das sanções. Além do mais, aumentou a pressão sobre as instituições governamentais de apoio a deficientes, órfãos e idosos, devido ao enfraquecimento do sistema familiar. Se for realmente a vontade da comunidade internacional de estabelecer e desenvolver a interação benéfica mútua entre os estados, e neste caso particular, com o Iraque, e promover a espécie de governo democrático que a Carta das Nações Unidas estimula, então a política atual de aplicar sanções parece ser totalmente contraproducente.

Para terminar, quero me referir rapidamente às consequências educacionais e culturais. As implicações mais perversas das sanções sobre o material didático, como computadores e equipamentos, e a ineficácia das muitas instituições educacionais, serão sentidas no futuro, através dos elevados índices de analfabetismo e da queda do padrão de ensino. A falta de cuidados médicos básicos para as crianças, a falta de transporte escolar e as péssimas   condições das salas de aulas, a falta de higiene, falta de livros e de outras necessidades, vêm contribuindo para um baixo índice de atendimento escolar. O estado de abandono de quase 8.000 escolas só serve  para piorar esta situação, sem falar no efeito que produz nos professores. Estima-se que milhares de professores registrados deixarão a profissão, devido a uma série de condições que eles enfrentam diariamente, associado à sua necessidade de aumentar seus ganhos para fazer face às necessidades de sobrevivência. A destruição de antiguidades durante a Guerra do Golfo e o descaso pelos sítios arqueológicos da Mesopotâmia, levaram à pilhagem e venda de valiosos itens. O trabalho nos sítios arqueológicos praticamente cessou, interrompendo um trabalho importante que em épocas recentes mostrou a extraordinária influência que a Mesopotâmia exerceu sobre o desenvolvimento, cultura e pensamento ocidentais. No sistema escolar, muitos projetos nacionais que objetivavam desenvolver a maturidade cultural foram suspensos ou cancelados, devido à falta de fundos, como a Campanha da Fé Nacional para o desenvolvimento da educação islâmica. O congelamento das relações culturais, imposto pelo regime de sanções, significa que programas de missões de estudos e intercâmbios culturais ficaram restritos ou foram duramente limitados. Isto impede  a capacidade do Iraque de desenvolver o conhecimento das culturas estrangeiras e de se instruir também. Talvez a única coisa positiva é que as sanções estimularam o atendimento a esta sociedade secular pelas mesquitas locais.A oração tornou-se uma forma de sobreviver a longos anos de sanções impostas pelo Conselho de Segurança.

Em resumo, as sanções continuam a matar as crianças e a manter elevados níveis de desnutrição. As sanções solaparam a recuperação cultural e educacional. As sanções não mudarão a forma de governo para uma democracia. As sanções estimularão o isolamento, a alienação e possivelmente o fanatismo. As sanções podem representar um perigo para a paz na região e no mundo. As sanções destroem os valores iraquianos e islâmicos.As sanções comprometeram as conquistas femininas e promoveram uma evasão intelectual em massa. As sanções destroem a vida das crianças, suas expectativas e as dos jovens. As sanções representam uma quebra da Carta das Nações Unidas, das Convenções dos Direitos Humanos e dos Direitos das Crianças. As sanções são contraproducentes e não têm qualquer impacto sobre as lideranças iraquianas, e as sanções levam a um inaceitável sofrimento humano, principalmente de jovens e inocentes. Como já disse, não acho legítimo justificar a manutenção das sanções econômicas sob tais circunstâncias. Fazer isso, no meu modo de ver, é desrespeitar os elevados princípios da Carta das Nações Unidas, da Convenção dos Direitos Humanos, e a  liderança moral e credibilidade das Nações Unidas em si. A manutenção disto corrói o papel global dos Estados Unidos.

Obrigado.

 

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